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Um passado que nem é passado

Memórias

Memórias de Aldo Arantes

Comunista, aos 87 anos, interpreta, em luta, o Tempo Presente

Renato Dias

Preso em 16 de dezembro de 1976, na queda da Lapa, em São Paulo, capital, tempos sombrios de ditadura civil e militar, sob a distensão lenta, segura e gradual arquitetada por Golbery do Couto e Silva e executada por Ernesto Geisel, o Alemão, presbiteriano, Aldo Arantes foi torturado nas dependências do Estado e saiu da penitenciária apenas depois da sanção da Lei de Anistia em 28 de agosto de 1979. Presidente da República à época, o general João Baptista de Oliveira Figueiredo, em uma manhã de sol, com a caneta na mão esquerda, a assina. A revelação está em Alma de Fogo, de sua autoria, a ser lançado nesta quarta-feira, 18h30, na Livraria Palavrear, em Goiânia.

A operação de repressão política e militar provocou também o assassinato, sob tortura, de João Batista Drummond de Andrade. Ele era membro do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil. O PC do B é um racha do PCB de fevereiro de 1962. À esquerda. A legenda promoveu ainda de 1966 a 1975 a guerrilha do Araguaia. Com um saldo trágico de derrota política e militar, dezenas de prisões, mortes, execuções extrajudiciais e desaparecimentos. A justiça retificou o atestado de óbito. Ação judicial movida pelo advogado Egmar José de Oliveira, ex-vice-presidente da Comissão de Anistia. Órgão para a Justiça de Transição no país.

Massacre da Lapa – PC do B, em 16 de dezembro de 1976

Presidente da União Nacional dos Estudantes, em 1961, Aldo Arantes, criador da UNE Volante e dos Centros Populares de Cultura, os CPCs, participou da Cadeia da Legalidade impulsionada pelo então governador do Estado do Rio Grande do Sul, Leonel de Moura Brizola. Depois da renúncia, em 25 de agosto, fundada em uma projeto de “autogolpe”, do inquilino do Palácio do Planalto, Jânio da Silva Quadros. Professor de Língua Portuguesa que atraía as massas com dis­cur­so populista. As Forças Armadas [Exército, Marinha e Aeronáutica] queriam impedir a posse do vice-presidente da República eleito, gaúcho de São Borba [RS], João Goulart.

Com uma “saída negociada pelo alto”, Jango é empossado na presidência da República e o parlamentarismo adotado no Brasil. O mineiro Tancredo Neves vira o primeiro-ministro. O líder trabalhista, herdeiro de Getúlio Vargas, o “pai dos pobres”, adota um programa nacional – desenvolvimentista. As Reformas de Base entram na agenda política do país. Aldo Arantes ingressa na Ação Popular. A AP. Da esquerda católica. Mais: ela é incorporada ao PC do B no ano de 1972. Antes, em 2 de abril de 1964, um golpe de Estado civil e militar depõe Jango. O ativista político de esquerda integra a resistência, é preso no ano de 1968 e cai na clandestinidade.

Tanto a AP quanto o PC do B adotam o socialismo da China e o ‘timoneiro’ Mao-Tsé-Tung como referências políticas, ideológicas, estratégicas e militares. Depois da saída da cadeia, Aldo Arantes é eleito deputado federal do Bloco Popular do PMDB, participa da campanha das diretas já, em 1983 e 1984, integra a Nova República, sob a presidência de José Ribamar Sarney, ex-UDN Bossa Nova, consegue a legalização da UNE, UBES, PC do B e PCB, é eleito pelo DIAP deputado federal constituinte nota 10, disputa as eleições à Prefeitura de Goiânia com o apoio de Sérgio Ricardo e Chico Buarque, além de compor com PT, PC do B e PSB a Frente Brasil e Popular, em 1989.

Chico Buarque
Chico Buarque, Apesar de você

Derrotado na volta à Câmara dos Deputados, em 1990, se elege vereador, em Goiânia, ocupa o cargo de secretário de Estado de Meio Ambiente, faz o curso de mestrado em Ciências Políticas na UnB, ensaia um doutorado na Espanha, realiza estudos na área de meio ambiente, contribui com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, 2006 e 2022, de Dilma Rousseff em 2010 e 2014, luta contra o impeachment, golpe de Estado pós-moderno de 2016, pesquisa as eleições disruptivas de 2018, a ascensão da extrema direita, o papel das Big Techs, lança obra seminal que aborda a guerra cultural e a disputa pela hegemonia. É, hoje, pré-candidato ao Senado.

Serviço

Lançamento

Livro: Alma de Fogo

Autor: Aldo Arantes

Quando: 29 de julho, quarta-feira, hoje, 18h30, Palavrear, Goiânia

Avaliação: Excelente

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