Antônio Lopes
Opinião

A hora da cura e o tempo de curar

Antônio Lopes

“Como podemos dançar enquanto nossa terra gira? Como podemos dormir enquanto nossos leitos queimam? Como podemos dormir enquanto nossos leitos queimam?” (Midnight Oil)

Nos campos, cidades e vilas do século XVIII a palavra emudecida ditava moda e cultura, política e economia de guerra ou paz. Nos dias conjunturais a fala alardeia e ecoa, a conta-gotas da verdade de mãos dadas com a mentira, a manchete que esboça retalhos da pós-modernidade. Atirada no ralo das iniquidades a verdade efêmera esvai, dá forma e cor, mau cheiro ao caos tramado, à perpetuação de bens materiais e poder de mando pela categoria dos ricos, via cumulação do capital. Por detrás da máscara do voluntariado, a forjar direitos, dizimar etnias e culturas os favores a apadrinhados, as políticas burguesas barganhadas ao preço do genocídio de inocentes Mundo afora. Atordoadas pelo consumo, a qualquer preço e prazo, as necessidades humanas prosseguem salvação inventada pelo Ocidente, desconhecem sua dor maior. Alheia a quaisquer princípios filosófico existenciais a branquitude retrata a moral amarelada a caminhar por sobre restos humanos materiais advindos da invasão de vilas e povos, surda ao grito faminto dos excluídos, emudecida na relação do lucro incessante com a devastação capitalista.

A mídia bebe da ética falaciosa de uma minoria que segue agraciada por leis excludentes, acesso, estampa na machete do dia o pobre periférico e miserável subjugado à lei determinada pela elite com poder de mando. Penalizado ao hospital de campanha, ao sistema prisional e ao cemitério o derradeiro ato do sujeito perde significado e significância no jogo sujo e vale-tudo da vida precarizada e vulnerável acuada na violência institucional. A classe trabalhadora estampa a procissão dos amontoados a fatos e fotos, crônicas, poesias. Segue “o homem, que não sabe mais que os outros animais, sabe menos, pois eles sabem o que precisam saber, o homem, não” (Fernando Pessoa). Cimentada na dubiedade a manchete do dia transforma o fato histórico na história mal contada pelo branco rico ao referir à luta pela sobrevivência em tempos nos quais o vento da desigualdade social arrasta culturas, gentes, sistemas, a extrair e expropriar riquezas minerais, vegetais, (des)humanas.

Fernando Pessoa

O capital a tudo arranca do lugar, como a dignidade do sujeito tornado mercadoria etiquetada a preço descartável e módico, peça manipulada em meio ao coletivo urbano-escravizado a barganhar o suor, penalizado à perpetuação desse sistema. Os apenados fomentam o fluxo dos escravizados aos desejos ultramodernos travestidos em mercadorias supérfluas, competição, analfabetismo funcional, desigualdade social. A determinar as classes valores burgueses expõem nas vitrines a comercialização a liberdade, pecado, prisão, religião de mercado tornada condição moderna no shopping, corpos, almas, consciência das massas neuróticas-acuadas. Na cidade o faz de conta desconhece o homem enquanto óleo do sistema, engrenagem da trama, condenado à periferia, ao perpetuar da imposição de países centrais que lucram a tráfico, roubo, contrabando, expropriação, escravização humana velada, instituições cúmplices da procissão cegada de mudos-surdos a badalar sinos sem badalo nem vergonha, ética ou prestação fiscal.

Trabalho análogo à escravidão no Brasil

A leniência direciona na contramão o ensinamento filosófico-doutrinário incapaz de se deixa tocar pelo símbolo da porta fechada, por aqueles que costuram roupas para os lázaros, de quem envia bonecas às filhas desses lázaros, o que reforça a tese de que “é dever dos neutros escolher entre a esperança ou o agravamento da barbárie” (Rubens Ricupero, Folha S.Paulo). É deste entrelugar, nicho da negação sociopolítica, econômico-cultural dos mais fracos que a realidade midiática levada a público comercializa e sugere o advento da pós-verdade exposto a Fake News. A TV, o jornal e o rádio contam a seu modo e lucro sobre a periferia – gueto conveniente, arcabouço de votos atrelados a políticas públicas neoliberais a financiar o desmonte de direitos, velha trama advinda da Revolução Industrial. Por entre direitos negados e manipulação da dor silenciada as regras burguesas definem o corpo cerceado na liberdade de ser, falar, ir e vir, expressar.

A chaga da exclusão dói mais no mais pobre, instala por detrás de grades, muros e cercas do sistema prisional um amontoado de sujeitos sem face, cerca de um milhão de brasileiros. São os passageiros da terceira classe retratados a cor, idade, categoria os quais recebem todo tipo de penalização do corpo político apartado das conquistas legais impressas no Contrato Social, mesmo embranquecido, promulgado a partir da hegemonia capitalista central. A chibata moderna determina o pecado, desconhece o ato de nascer condenado à base da pirâmide social. Valores hipócritas alinhavados a dinheiro, poder de guerra, geopolítica Mundial de dominação manipulam os vulneráveis açoitados no tabuleiro humano-histórico-excludente-tramado-fomentado-a-ferro-e-fogo-fome-caos. Pergunta que não cala na mente dos indignados: – Onde fica a cidade em que vivíamos, até certo tempo e tecnologia, quando águas límpidas banhavam nativos e terras? Onde foi empregada a mais-valia de todo o ouro extraído, contrabandeado por reis, piratas, compadres aportados por caravelas?

Não existe riqueza social, política, material, cultural no homem apartado do convívio igualitário, em meio ambiente destinado aos ditames do roubo, exploração, contrabando da milícia instalada a partidos políticos, templos abençoados por deuses, mantidos pelo diabo. O mercúrio, muito mais que o pecado inventado no templo de deuses e diabos mata a fauna, flora, água e solo coloca em risco a vida humana, seu lugar, aborta gentes e locais do progresso alcançado por meio da Ciência e consciência, transforma e enriquece, acorda um território acovardado acostumado ao tronco histórico do capital. Desde há muito, quando uma criança indígena morre assassinada pela ganância dos predadores do meio ambiente, com certeza, parte da humanidade morre junto com ela. Mulheres e homens que se calaram desconhecem palavras que explicam o perdão, a hora da cura, quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo, ter que jogar de novo, mesmo sem saída, sem caminho, para baixo ou para cima.

Se a cura ou transformação advém do diálogo, este, consiste na comunhão humana a dizer sua palavra. Os seres da práxis de sua condição existencial concreta, compreendida e mediatizada em um Mundo no qual o diálogo viabiliza às pessoas algum poder de consciência, são sim capazes de denunciar a estrutura opressora, sob o prisma da ética compromissada com os que vivem oprimidos. Cansado de pão, circo o “povo quer viver, comer e morar bem, um bom emprego, salário compatível com a dignidade, saúde e educação enquanto políticas públicas de qualidade, liberdade religiosa, livros em vez de armas. Quer ir ao teatro, ver cinema, acesso aos bens culturais, porque a cultura alimenta a alma. O povo quer de volta a esperança, afirmou Lula, no discurso da vitória em outubro de 2022. Sob a lente de Freire, em Pedagogia do Oprimido, “não podemos existir sem nos interrogar sobre o amanhã, sobre o que virá, a favor de que e contra o que, a favor de quem, contra quem virá” (2011a, p. 136).  

Paulo Freire

Sem formação escolar politizada, desprovida do conhecimento científico como arma, a classe trabalhadora segue inerte às condições de alienação, inconsciente de sua maior ignorância, esboçada na ignorância da ignorância. Onde está o chão, país e democracia não apenas como palavras bonitas inscritas na lei, algo palpável e sentido na pele, ali se pode sim construir, mesmo que por meio da labuta desigual diária, remunerada ao valor ínfimo do labor do dia que acaba ao cair da noite. A roda da economia deve girar, gerar empregos, valorizar os descapitalizados submetidos aos salários mínimos que não duram a cada trinta dias os quais as famílias convivem a partir do seu poder de compra ou de sua falta à mesa. De outro lado da dinâmica capitalista-moderna-excludente-violenta carente de cura os nominados micros e empreendedores fomentam o extraordinário potencial de exploração expropriação do capital humano destinado à obtenção da mais-valia absoluta por meio do trabalho estranhado, conceito de Ricardo Antunes, a serviço do capital muito antes de qualquer proposta de desenvolvimento do lugar.

Por meio das políticas públicas o combate à violência, a igualdade entre os gêneros, a garantia de direitos e salários, homens a desempenhar funções apartadas na anêmica condição de sujeito sem face subjugado ao exército industrial de reserva, à trégua consciente ao racismo, preconceito, discriminação, dias em que todos acessem os mesmos direitos e oportunidades. “Lá onde o rio rompe, a madeira vermelha e o carvalho do deserto, carcaças de carros e diesel fervente, vapor a 45 graus. A hora chegou para quitar a dívida, para pagar o aluguel, para pagar nossa parte. A hora chegou, fato é fato, ela pertence a eles, vamos devolver” (Beds are burning, Midnight Oil). Ainda há tempo de curar, pois quem visita sozinho lugares onde foi feliz ou infeliz e quem, de repente, liberta os pássaros do viveiro sabe que sua casa não está à venda ou barganha, não cabe aluguel nem invasão. É abrigo, mundo seu, no qual só deve entrar quem for convidado. E sabe que “a raça humana exagera em tudo: seus heróis, seus inimigos, sua importância” (Charles Bukowski). E o pulso, ainda pulsa!

Charles Bukowski

Antônio Lopes, filósofo; professor; revisor; escritor; autor; mestre em Serviço Social; doutor em Ciências da Religião/PUC-Goiás; pós doutorando em Direitos Humanos – UFG

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