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Democracia sitiada? Racionalmente não, irracionalmente sim

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Opinião

Democracia sitiada?
Racionalmente não, irracionalmente sim

Fernando Casadei Salles

 

Segundo o bordão de famoso quadro humorístico da TV brasileira, “há controvérsias” se haverá ou não golpe de Estado no desenrolar da crise política brasileira. Talvez, a controvérsia aludida se refira mais à sua viabilidade política de se realizar como ação histórica do que dela poder ou não, simplesmente, acontecer. No limite, portanto, não se trata de se discutir a realização ou não do golpe, mas sim da sua possibilidade histórica.

A ideia em si, do golpe, é questão indiscutível que em determinado momento possa vir acontecer. Ele sobrevoa a crise política brasileira. Ninguém de bom senso a questiona. Os fatos, quase diários, falam por si mesmo. Não precisam ser explicados. Se essa discussão, no entanto, é relativamente passível, sua possibilidade histórica já é outro problema. Longe do que afirma o Presidente, não é fácil de se consumar.

Tampouco ela depende exclusivamente de um amontoado de armas como pensam os defensores no governo dos decretos armamentistas. O próprio Napoleão, um dos maiores generais da história mundial das guerras, nunca deu às armas, na guerra, o maior valor. A moral da tropa lhe valia mais, na proporção de três para um. Se o golpe aspira participar da história, ele precisa de representatividade política na sociedade. Ele precisa de apoio político e social, além evidentemente de apoio militar. Apoio esse insistentemente apregoado pelo Presidente, mas que até o momento, por sinal, nunca confirmado. Seja como for, o golpe não pode ser ação restrita de uma pessoa, uma família ou mesmo de um grupo social com baixa representatividade política na sociedade, como é o caso atual da crise política brasileira. A abrangência social é condição básica. Sem capilaridade Sem bases sociais amplas, o Poder corre o risco da sua não constituição política e ou da sua não obtenção de legitimidade política. Coisas tão ou mais importantes quanto o poder de fogo disponível para a garantia física do Poder Político. O golpe político-militar de 1964 é a maior evidência dessa afirmação. Além da unidade armada, que lhe dava amparo pela força, o regime dispunha de forte apoio político popular, sobretudo nas classes médias urbanas. No grosso do empresariado urbano e rural, além de ter um projeto de Nação. Comparando a situação vivida em 1964 com a que estamos atualmente vivendo, percebemos que aquela, de 1964, teve um projeto de nação justificando-o, independentemente do seu caráter antipopular e de modernização conservadora do país. Enquanto este, do quadro atual, não aponta para quase nada senão para um projeto de poder.

Jair Messias Bolsonaro - carica
Jair Messias Bolsonaro – carica

A única possibilidade orgânica de o Governo vir a se implantar como um projeto de Nação seria revigorar sua proposta de renovação da economia. Coisa que até o presente momento não aconteceu com duas agravantes. A primeira é que até o momento o projeto da nova economia fracassou em todas as suas metas, independentemente da crise provocada pela pandemia e a segunda agravante se deu pela intervenção atabalhoada do Presidente. Ocorrida nos últimos dias, feitas nas administrações das duas maiores estatais da economia brasileira. Levantando profundas suspeitas sobre o projeto neoliberal liderado pelo economista Paulo Guedes. Da equipe incialmente escalada para a implantação do novo modelo econômico, mais da sua metade já se desvinculou do projeto. Se essa escalada prosseguir como tudo indica que acontecerá, a base política do governo sofrerá um golpe. Golpe fatal Praticamente quase fatal. Se é que essas duas intervenções poderão ser superadas. Sem o concurso desses setores sociais imbricados com o Projeto econômico prometido na eleição, o governo terá reduzido a quase nada sua base social. Lhe rezarão a missa, se houver alguma missa, poucos empresários, dentre eles, talvez, só o leal “véio da Havan”.

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