
Renato Dias
Os EUA enfrentam uma crise aguda de hegemonia. Um mundo multipolar se desenha. A China deve ultrapassar o país no ranking econômico global. A Casa Branca desrespeita a ONU. A Rússia mostra força nuclear e militar. A guerra no Irã teria o apoio de apenas 29% dos 320 milhões de habitantes e a rejeição a Donald Trump já chega a 64%. Republicanos podem ser derrotados em novembro. Regressivo, ele dialoga tanto com um projeto de autocracia quanto com um programa de Estado Iliberal. Duas versões de um vil autoritarismo. Uma espécie de fascismo estrutural. É o que a extrema direita tem a oferecer.

Donald Trump prometeu na campanha eleitoral ao seu segundo mandato na Casa Branca tornar a vida do imigrante nos EUA “um inferno”. O ICE executa o plano. Duas mortes de norte-americanos já ocorreram. O republicano anunciara que acabaria com as guerras. A de Rússia e Ucrânia, em um dia. Com a sua anuência, Benjamin Netanyahu fez a Faixa de Gaza virar escombros e o número de mortos atingir 70 mil. Ele atacou a Venezuela, capturou Nicolás Maduro e Cilia Flores, ameaçou a Groenlândia, Canadá e até o México, assediou a Nigéria, e apesar de estar em negociações, bombardeou o Irã.

Sem consultar o Congresso, o Capitólio, estabeleceu um tarifaço global. A Suprema Corte o enquadrou e ele adotou novas medidas de retaliação comercial. Além de censurar a imprensa e as editoras de livros, perseguir jornalistas independentes, assim como desrespeitar a autonomia das universidades. O líder da extrema direita adota comportamento patrimonialista e ensaia flertar com um eventual terceiro mandato. O que não é permitido pela Constituição. Evasivo, não deu explicações plausíveis para o seu envolvimento com Jeffrey Epstein. Nem às acusações de que teria tido relações sexuais com menores de 18 anos.


Bem longe da democracia
Os EUA há muito não poderiam ser tipificados mais como uma democracia, afirma o professor doutor de História da Universidade Federal de Santa Catarina [UFSC], Sidnei Munhoz. Uma sociedade voltada para a guerra, a conceitua. O seu complexo industrial-militar financia e corrompe agentes públicos, pontua. Mesmo modus operandi da mídia, crê. Com agências que espionam, organizam golpes e matam adversários, alerta.

O escritor critica o atual sistema eleitoral do país. Obsoleto, viciado, excludente e organizado por um poder que não é independente, reclama. Nos últimos 80 anos, os principais conflitos nos cinco continentes tiveram os EUA como agente desestabilizador, lembra. Invasões, guerras ilegais, alegações falsas, destruição de nações, metralha. Somente em 2026, Venezuela, Irã, ameaças a Cuba, Groenlândia, Palestina, ele insiste.
O que seria ponto de ruptura com a democracia sob Donald Trump é o cume de itinerário de longa duração iniciado na última década do século 19, vê Sidnei Munhoz. “Como aponta o historiador William Appleman em The tragedy of American Diplomacy”. O autor vê que após a 2ª guerra mundial, com a destruição da Europa, Ásia, o crescimento dos EUA e de sua máquina de guerra, as agressões atingiriam um novo patamar, frisa.
Sob Donald Trump, os Estados Unidos das Américas [EUA] caminhariam já a passos largos para o estabelecimento de uma democracia iliberal, avalia o professor doutor da Universidade Federal Fluminense [UFF], Daniel Aarão Reis Filho. Aos moldes do modelo da Hungria, relata. Um país do leste europeu. Mais: exportado por Vicktor Orbán, diz. Com 16 anos no poder. Não seria uma autocracia, acredita o pesquisador.

As instituições funcionariam com limites, explica. A referência é à Suprema Corte, Congresso, imprensa livre e até universidades. Elas seriam controladas pelo executivo, ele analisa. Hugo Chávez aproveitou o boicote das oposições na Venezuela para capturar o Estado e a sociedade, recorda-se. O intérprete do Tempo Presente diz que os seus adversários eram os que resistiam ao projeto estratégico do bolivarianismo.
A autocratização do Estado é, hoje, um processo que ocorre tanto nos EUA quanto nos países capitalistas centrais, como França, Alemanha e Inglaterra, observa o professor doutor da Faculdade de História da Universidade Federal de Goiás [UFG], David Maciel. Marxista, ele diagnostica como o desdobramento da aceleração da concentração de riquezas e do aumento visceral das desigualdades econômicas no mundo.

O esvaziamento dos procedimentos democráticos pela força do dinheiro, a elevação da repressão do Estado, a ampla retirada de direitos trabalhistas, econômicos e sociais, com o respectivo avanço da autocracia constituem sim uma tendência inscrita na própria ordem política do capital no atual cenário histórico, sublinha o docente. Para além da segunda passagem do republicano Donald Trump pela Casa Branca, detecta.
Já o peruano Carlos Ugo Santander, professor doutor da Faculdade de Ciências Sociais da UFG, não acredita que os EUA virem uma autocracia. As instituições ainda funcionam, explica. Com pesos, freios e contrapontos, ressalta. Como no episódio do veto da Suprema Corte à política tarifária estabelecida por Donald Trump. O republicano é um produto conjuntural, destaca. Não seria estrutural, afirma.

O sociólogo mostra também que Donald Trump deixará a Casa Branca em dois anos, pode perder as eleições para o Capitólio de novembro de 2026, vê o crescimento dos democratas após o ataque à Venezuela, a guerra contra o Irã, o genocídio em Gaza, as ameaças à Groenlândia, Canadá e México, além da caçada do ICE, como traduzem os números da queda brusca de aprovação popular ao seu segundo mandato.

A esquerda no divã
Análises plurais
Jornalista e escritor, Osvaldo Bertolino [PC do B] observa que existe autonomia entre os poderes nos EUA. Com o funcionamento do sistema de pesos e contrapesos, conta. O importante é analisar o todo, registra. Qual o papel da Constituição e dos instrumentos de mediação política, ele questiona. A resistência interna ainda é insuficiente, lamenta. Donald Trump obedece a uma lógica econômica, resume o marxista.

Os EUA atravessam uma grave crise de hegemonia global, afirma o economista Fernando Safatle [PSB]. Donald Trump expressa ideias de expressiva parcela da sociedade que quer eventual reversão do declínio do império, revela. É o seu segundo mandato, lembra. Com projeto de tornar os EUA grandes de novo, vê. Tarifaços, sanções e guerras compõem as medidas, frisa. Para implosão da ordem e a imposição de nova, atira.

A democracia nos EUA é limitada, frágil, com eleições dominadas pelo poder econômico, resume o historiador Reinaldo Pantaleão [UP]. Ela nunca existiu, fuzila. Já Donald Trump é o típico exemplar da extrema direita, o define. Ele crê ser o “dono do mundo”, critica. As invasões promovidas pelo país capturam riquezas das nações, denuncia. “Estado liberal sem inclusão social, nem distribuição de renda, fundado na guerra.”

Não creio que Donald Trump termine o seu segundo mandato presidencial, declara o físico e mestre em Engenharia Nuclear Arthur Otto [Cidadania]. Eleições legislativas ocorrem em novembro, a tendência é de derrota dos republicanos, com a perda de maioria no Capitólio, prevê. “Resultado da crise da economia, com a elevação dos gastos públicos, o efeito corrosivo da inflação e o cansaço do eleitor com as guerras”.

Megalomaníaco. Assim o engenheiro eletricista Rosemar Cardoso Maciel, líder petista, define Donald Trump. Os EUA estariam, hoje, sob autocracia relativa, conceitua. O cenário otimista e de derrota dos republicanos e suas agendas nas urnas de novembro de 2026, ele calcula. A oposição democrata deverá ter sim, em 2027, o controle tanto da Câmara quanto do Senado, com ampla maioria, projeta o analista de Política Internacional.

Em xeque
Liberal examina unilateralismo exarcebado
Liberal, homem de formação humanista e cultura republicana e democrática, Hermes Traldi avalia que o Direito Internacional tem sido alvo de ataques, como na Ucrânia, em Gaza e no Irã. A Carta da ONU e até mesmo a instituição são, hoje, desrespeitadas, explica.

Donald Trump pode ser também acusado de um unilateralismo exarcebado, com potencial abertura para a instalação de uma autocracia, revela. A amplitude e os sucessivos eventos parecem ações coordenadas para reequilibrar interesses geopolíticos estratégicos globais, diz.

Republicano
Aventuras já no limite
O presidente da República dos Estados Unidos, Donald Trump, assedia as instituições em seu país e no mundo, acusa o filósofo Márcio Santilli [ISA]. Mesmo assim, ele obteve amarga derrota na Suprema Corte, recorda-se. Além de abrir confronto com o Congresso americano, emenda. Ele se aproxima de uma “encruzilhada”, prevê. O republicano está próximo do seu limite, observa o ex-deputado federal constituinte.

Longe de serem “bastião da democracia global”, os EUA já construíram uma autocracia, admite o advogado e pesquisador da geopolítica mundial Luiz Fernando Dolci. A única alternativa para reverter o quadro em movimento acelerado seria uma derrota dos republicanos nas eleições de novembro para renovação de cadeiras no Capitólio, acredita. Eles podem repetir Adolf Hitler em operação de 1939 a 1945, alerta.


A corrosão do Estado Democrático de Direito nos EUA
Betty Almeida
Em sua definição mais básica, a democracia é um governo exercido pelo povo. A democracia dos gregos era direta, cada cidadão tinha voz e voto, (com exceção de escravos, estrangeiros e mulheres). Atualmente a democracia é representativa, isto é, o povo escolhe seus representantes, que compõem o governo e o parlamento. Esses representantes governam sob a égide uma constituição, um conjunto de leis máximas que devem garantir direitos aos cidadãos e estabelecer deveres.
Nos Estados Unidos, o presidente da nação é escolhido por um colégio eleitoral, de modo que a eleição do governante máximo não é direta. O Congresso é constituído por representantes eleitos pelo voto direto. Outras instituições regem a vida social, como o poder judiciário, que regula diretamente a obediência dos cidadãos às leis. Nos Estados Unidos, os representantes do poder judiciário são eleitos.
Contudo, a igualdade de direitos para os cidadãos, incluindo mulheres, pessoas negras e de orientação sexual diversa do padrão heterossexual exigiu e exige até hoje muita luta desses cidadãos. E os estrangeiros, embora legalmente tenham direitos constitucionais, muitas vezes são tratados como cidadão de segunda classe, especialmente de são considerados ilegais. Com todas essas questões, os Estados Unidos foram, por muito tempo, tidos como um modelo de república democrática no Ocidente.

A eleição de Donald Trump abalou o funcionamento da democracia e das instituições dessa república. Já no início de seu governo, Donald Trump tomou várias medidas contra os estrangeiros, não apenas os ilegais, mas também os documentados. Ações policiais contra essas pessoas chegaram a provocar a morte de cidadãos estadunidenses natos. Trump nomeou ministros os donos de Big Techs e violou liberdades individuais e também a liberdade dos meios de comunicação. Atacou diretamente a autonomia das universidades e a liberdade da imprensa.

Porém, foi no campo das relações internacionais que seus excessos transpuseram limites até então respeitados. Na Organização das Nações Unidas, os Estados Unidos, com seu direto de veto no Conselho de Segurança, já reinavam. Trump continuou a vetar o levantamento das sanções econômicas contra Cuba e medidas contra o genocídio dos palestinos por Israel. Mas passou simplesmente a ignorar a ONU. Mostrando sua falta de consideração para com o órgão máximo das nações, chegou a enviar a esposa Melania Trump para presidir uma reunião do Conselho de Segurança, em 2 de março de 2026, cujo tema era Crianças, Tecnologia e Educação em Conflitos.

Trump orgulhava-se de ser um presidente que não tinha iniciado guerras no seu mandato anterior. Mas no atual começou apoiando a Ucrânia na guerra iniciada pela Rússia e Israel na guerra de genocídio contra os palestinos. Participou ainda de um ataque ao Irã lançado por Israel, e acabou pedindo cessar fogo ao Irã, que havia reagido energicamente ao ataque. Decidiu arbitrariamente, atacar a Venezuela e sequestrar o presidente do país e sua esposa, sob uma absurda acusação fabricada de narcotráfico, que foi anulada pelo próprio sistema judiciário dos EUA.

Para que o país tome qualquer medida contra um país estrangeiro, ou para que entre em guerra, é preciso que o parlamento dos EUA conceda autorização ao presidente. Existe um conjunto de leis nos EUA (algumas muito antigas) que regula intervenções militares ou econômicas contra nações estrangeiras, dependendo de autorização do congresso. A Lei de Inimigos Estrangeiros, de 1798, autoriza o presidente dos EUA a deter ou deportar estrangeiros que ameacem a segurança nacional e é aplicável em situação de guerra.
A Lei da Insurreição de 1807 confere ao presidente dos EUA ampla liberdade para mobilizar o Exército ou a Guarda Nacional, mesmo sem aquiescência do governador estadual, para debelar rebeliões e agitações civis. A Lei dos Poderes de Guerra de 1973 obriga o presidente da República a notificar o Congresso no máximo 48 horas depois de iniciar uma ação militar e a retirar tropas em no máximo 90 dias se o Congresso não autorizar a guerra. O presidente dos EUA tem ainda o poder de impor sanções econômicas, restrições comerciais e bloquear bens de indivíduos, mesmo sem votação prévia do Congresso, segundo leis como a International Emergency Economic Powers Act.
A lei de Inimigos Estrangeiros não era aplicável no caso do sequestro do presidente Maduro, pois os EUA não estavam em guerra com a Venezuela. Para o ataque ao Irã não foi pedida autorização ao Congresso. Embora estivesse em processo de negociação com o Irã, a propósito do programa nuclear para fins pacíficos daquele país e do petróleo, Trump iniciou bombardeio ao Irã, que logo no início, matou cerca de 150 crianças que frequentavam aulas em uma escola fundamental para meninas. Essa guerra, da qual Israel participa e segundo muitos foi o instigador, viola direitos humanos e convenções sobre guerra. Como o Irã está reagindo, a guerra promete prolongar-se a despeito das expectativas de Trump e de seu capanga sionista.
O sistema de freios e contrapesos que rege o poder nos EUA, em tese, deveria regular as relações entre o Congresso e o presidente dos Estados Unidos, estabelecendo o equilíbrio entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, mas perdem eficácia com um Congresso de maioria republicana. As ações de Trump que desafiam a Constituição acabam consolidadas, pois a contestação das forças opositoras é fraca. E Trump, que interpreta a seu modo a chamada Lei Monroe, desafia também a legislação internacional, sendo um “polícia do mundo” como muitos de seus antecessores, tanto do partido Democrata quanto do Republicano, mas particularmente violento e atrabiliário.
Na configuração política mundial, as autocracias atuais da Europa, como a Hungria, Sérvia, Turquia, Índia construíram-se lentamente, em vários anos, mas a escalada contra a democracia nos EUA se faz com celeridade inaudita desde que Trump assumiu o governo. Contradições internas nos EUA, como a desindustrialização resultante da deslocalização das unidades de produção e da financeirização vêm reduzindo empregos nos EUA; a perseguição aos imigrantes reduz a mão de obra disponível para setores agrícolas, e Trump não tem resposta para essas contradições.
A necessidade de petróleo para a geração da energia leva-o a investir contra nações cuja soberania ele ignora, atropelando sem escrúpulos as normas do país. A reação a esses atos praticamente não aparece na oposição democrata, o que para Trump soa como validação e permissão para subir sempre mais degraus na ação governamental autocrática. Trump pode contar com o apoio de parte importante da alta e obscura administração dos EUA (o chamado deep state) que o tem deixado livre para agir segundo suas inclinações autocráticas.
Trump cerca-se de conselheiros que lhe dizem o que quer ouvir e assessores altamente qualificados e experientes sentem-se constrangidos diante dos desmandos do presidente, como Joe Kent, assessor de contraterrorismo, que declarou, em sua carta de demissão, que o Irã não representava ameaça iminente aos EUA e que a guerra foi iniciada por pressão do lobby israelense. A contradição principal enfrentada por Trump é a perda da hegemonia internacional, com o avanço econômico da China, aliada da Rússia, adversária dos EUA, enfraquecida depois da queda da União Soviética, mas herdeira de grande poderio econômico, tecnológico e militar. O dólar perde importância no comércio internacional e muitos países já realizam suas transações em moeda chinesa.

No cenário doméstico desfavorável, sob a espada de Dâmocles do dossiê Epstein, e na cena internacional, onde os EUA perdem cada vez mais relevância, mantendo-se apenas às custas do seu ainda forte poder militar – mas atualmente desafiado pelo Irã – Trump aposta na escalada autocrática, não só dentro do seu país, mas no mundo inteiro, aposta que tem enormes chances de dar errado. O povo dos Estados Unidos já mostrou, na luta das sufragistas pelo voto das mulheres; na luta dos cidadãos negros por direitos civis; contra a guerra do Vietnã e do Iraque, seu poder, indo às ruas, reivindicando, enfrentando a polícia e obtendo vitórias. Hoje em dia, com sindicatos enfraquecidos – como em todo o mundo – a organização dos trabalhadores, estudantes e cidadãos em geral, pode não ser suficiente para animar grandes movimentos de contestação, mas o descontentamento com o desemprego, a queda do poder aquisitivo, a dificuldade de acesso à moradia e aos serviços de saúde cresce. A convocação de soldados estadunidenses para a guerra contra o Irã, que não é vista como uma guerra dos EUA, e sim de Israel, se concretizada, acenderá, sem dúvida, os ânimos.

A guerra do Irã vem sendo um fator de desmoralização para os Estados Unidos e para Israel, e tanto Trump quanto seu capanga sionista veem suas bravatas caírem no ridículo diante da reação poderosa do Irã aos ataques contra civis e assassinatos de dirigentes religiosos e políticos iranianos. Isso pode trazer sérias dificuldades para Trump e seu capanga sionista, os dois com problemas na justiça e diante de eleições. As eleições intermediárias que se aproximam serão certamente um divisor de águas para as pretensões autocráticas de Trump. Se ele perder a maioria do Partido Republicano no Congresso, os rumos da democracia nos EUA tomarão sem dúvida uma direção diferente daquela almejada por ele em seus delírios de mandante autocrático dentro do seu país e xerife de um mundo subjugado pela força militar aos interesses econômicos dos Estados Unidos.
Betty Almeida
Rio de Janeiro, março de 2026















