
Renato Dias
Editor do jornal Amanhã, membro da redação de Realidade, repórter especial de Veja, destaque de Opinião, fundador de Movimento, Retratos do Brasil e de Reportagem, o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira morreu aos 85 anos de idade, dia 2 de maio. Formado em Física.

De cultura enciclopédica, formação humanista e ideias de esquerda, ele fez a primeira reportagem de fôlego com denúncias de torturas sob a ditadura civil e militar no Brasil. O presidente da República era o general Emílio Garrastazu Médico. Tempos sombrios aqueles.

Ele operou em Amanhã no ano de 1966 com José Roberto Arantes de Almeida. Na Veja, 1968, trabalhou com o italiano Mino Carta. O empresário Fernando Gasparian financiou Opinião. Já o semanário Movimento durou de 1975 a 1981. Com o espírito de frente ampla.

O intelectual público condenou tanto a Lawfare da Ação Penal 477, do suposto mensalão, quanto o impeachment de Dilma Rousseff. O escritor contou que até ensaiou. Mesmo assim não suportou a vida partidária. Em polêmica com João Amazonas, secretário-geral do PC do B.

Nascido em Exu, Estado de Pernambuco, o repórter Raimundo Rodrigues Pereira testemunhou o ar irrespirável de 1964 a 1988. Mais: viu ainda a ascensão da extrema direita global e no Brasil, como a eleição de Jair Messias Bolsonaro. Além do golpe fracassado de 8 de janeiro.

Imprensa popular
A defesa da democracia
A própria ética no exercício profissional do jornalismo no Brasil, Raimundo Rodrigues Pereira funda em 1975 um espaço não apenas de informações, como de articulação política nacional com vozes silenciadas, o que contribui para a formação de uma consciência crítica sob a ditadura civil e militar, observa o professor doutor da Economia Urbana e Arquitetura, Lenine Bueno, da PUC e UniEvangélica. No relicário das joias da inteligentsia, ele aparece como substantiva contribuição à redemocratização do país, ele diz.

Cérebro de Opinião [1972-1975] e também de Movimento [1975-1981], principais veículos da denominada imprensa alternativa o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira [1940-2026] protagonizou um papel fundamental na mobilização e organização dos trabalhadores na segunda metade da década de 70, analisa David Maciel. Professor doutor de Contemporânea, da Faculdade de História da Universidade Federal de Goiás [UFG]. Pioneiro na criação da imprensa popular e de um jornalismo crítico e formativo, resume.

Raimundo Rodrigues Pereira é o nome de um tempo que não volta mais, informa o professor doutor em Ciências da Religião Antônio Lopes. A sociedade neoliberal testemunha, hoje, o tsunami das Fake News, da manipulação, do medo e do cansaço, sublinha o escritor. A modernidade coloca o homem sujeito à tecnologia, acredita o observador do Tempo Presente. Um pesquisador da Era das Desrazão. Ele lutou pelas liberdades, a democracia e o Estado Democrático de Direita, com o céu nublado, sublinha. Personagem em extinção na mídia, vê.

Uma imprensa alinhada ao interesse público em trajetória longeva marcada pela coerência. Assim o professor doutor em Educação aposentado da Universidade de Sorocaba [Uniso-SP] Fernando Casadei Salles afirma que Raimundo Rodrigues Pereira ingressa na história política e social do Brasil contemporâneo. Ele foi preso político no Navio Raul Soares, em Santos [SP], logo após o golpe de Estado civil e militar de 1964, recorda-se. Homem de conduta ilibada, coragem, como poucos, define-o o ex-guerrilheiro da ALN e Molipo.


Tristeza sem fim
Repercussão entre os jornalistas
O jornalismo democrático e progressista, a imprensa popular, perde um dos seus ícones. É o que afirma o jornalista e escritor Osvaldo Bertolino. Ele combateu os monopólios de comunicação que cerceiam as liberdades de opinião e expressão, denuncia o periodista.

Um homem em luta contra o pensamento único da mídia e o seu projeto neoliberal, metralha. Ele batalhou e criou os seus próprios veículos, lembra. Fundamentais no combate à ditadura [1964-1985], crê. Ele editou Opinião e lançou o jornal Movimento e Reportagem, recorda-se.
Jornalista pioneira do Fantástico, Rede Globo, Flávia Adalgisa conta que Raimundo Rodrigues Pereira foi um dos pilares da resistência democrática e mestre do jornalismo de denúncia no Brasil. “De coragem inabalável”, atira. Nunca se curvou ao autoritarismo, relata.

A sua história mostra que o jornalismo exercido com um tom crítico, disciplina e ética é indispensável à manutenção da liberdade e da democracia, registra. Uma referência de dignidade, resume. Do jornalismo pela justiça e a transformação social, acredita a repórter de São Paulo.
Nunca se deslumbrou com o poder, diz. Ele fez jornalismo defendendo e observando o interesse público, vê. Um jornalista na essência da palavra, afirma. Não se intimidava nem seguia modismos passageiros, insiste a ex-presidente da FENAJ Maria José Braga.

Elegante e até meio tímido, Raimundo Rodrigues Pereira deixa como legado a defesa inegociável dos valores humanos, avalia o jornalista Tom Alves. Nunca buscou os holofotes fáceis da fama, avisa. Não se recusou a defender as suas ideias, dispara. “Um homem raro”.

No divã

A esquerda em luto:
O advogado e mestre em Ciências Políticas Aldo Arantes [PC do B] lembra que o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira lutou tanto contra a ditadura civil e militar quanto para impedir o avanço da extrema direita sob a democracia. Pela construção da hegemonia de um pensamento progressista na sociedade, sublinha o ex-deputado federal constituinte. Um defensor intransigente da soberania e da democracia, explica.

O Brasil perde em 2 de maio de 2026 um intelectual, de cultura vasta, texto refinado, lamenta, emocionado, hoje, o professor de História, um marxista, Reinaldo Pantaleão. Um critico mordaz do autoritarismo e da extrema direita no Brasil, confessa. A sua escola ética e cidadã no jornalismo enfrentaria, em tempos sombrios das redes digitais, um processo acelerado rumo à extinção, alerta. A tristeza nos consome, fuzila.

Uma tristeza sem fim, revela o cineasta premiado Ângelo Lima. Personagem de uma época de ouro do jornalismo de resistência, pontua. Um dos seus últimos remanescentes, volta a lamentar o documentarista. Um jornalismo que está em extinção, hoje, ele desabafa. Morto aos 85 anos, ele possuía combates a serem travados pela frente, de resistência, dispara o enfant terrible de 1968, o ano que não terminou.

Cartum

A despedida de Fróes


O maior dos jornalistas
Sob a ditadura, ele foi o grande líder da imprensa alternativa, abandona as redações dos conglomerados de mídia, forja novo jornalismo progresista e forma gerações de profissionais da área de comunicação no País
Breno Altman
A morte de Raimundo Rodrigues Pereira, neste 2 de maio de 2026, aos 85 anos, nos obriga a olhar para trás e reconhecer a dimensão de uma trajetória rara no jornalismo brasileiro — talvez a maior de todas. Expulso do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, Raimundo fez um movimento pouco convencional: deixou para trás a engenharia e escolheu o jornalismo como trincheira. Essa transição não foi apenas profissional, mas profundamente política. Em vez de cálculos e projetos técnicos, passou a lidar com a matéria viva da sociedade brasileira, buscando compreendê-la e transformá-la pela palavra.
Sua passagem pelas revistas Realidade e Veja marcou uma geração. Em Realidade, participou de um dos momentos mais criativos e ousados da imprensa nacional, ajudando a construir uma linguagem inovadora, investigativa e profundamente conectada com o país real. Em Veja, atuou em sua fase inicial, quando a revista ainda buscava um jornalismo mais analítico e ambicioso, antes de se transformar em outra coisa ao longo dos anos.
Mas foi sobretudo na imprensa alternativa, sob a sombra da ditadura, que Raimundo Rodrigues Pereira deixou sua marca mais profunda. Foi um dos fundadores do jornal Opinião, espaço decisivo de resistência intelectual e política. Em seguida, teve papel central na criação do Movimento, que se tornaria um dos mais importantes veículos de oposição ao regime militar, reunindo vozes críticas e ajudando a manter acesa a chama do debate público.
Sua inquietação jamais cessou. Raimundo também esteve à frente de projetos como o Retratos do Brasil e a revista Reportagem, sempre com o mesmo objetivo: compreender o Brasil em profundidade, dar voz aos silenciados e oferecer ao leitor instrumentos para pensar criticamente a realidade.
Mais do que os veículos que ajudou a fundar ou dirigir, foi sua postura que marcou época. Raimundo nunca se rendeu ao jornalismo acomodado, nem à falsa neutralidade que tantas vezes serve para mascarar interesses. Sua escrita era clara, firme, ancorada em princípios. Ele sabia de que lado estava — e nunca fez disso um segredo. Tampouco cedia na ferramenta que escolhera: o jornalismo rigoroso, bem apurado, colado nos fatos, sem concessões à propaganda.
Para quem teve o privilégio de acompanhar sua trajetória, fica a impressão de que Raimundo Rodrigues Pereira não apenas atravessou a história recente do Brasil, mas ajudou a moldá-la. Seu legado não está apenas nos textos ou nas publicações, mas na ideia de que o jornalismo pode ser, ao mesmo tempo, rigoroso e comprometido, crítico e transformador.
Durante muitos anos tive a honra de partilhar projetos com esse grande mestre. Convidei-o a participar em empreendimentos sob meu comando, como as revistas Página Aberta e Atenção!, e fui seu colaborador em empreitadas como a revista Reportagem. Foram tempos de ensinamentos inesquecíveis. Sua morte encerra uma vida, mas não apaga sua presença. Ao contrário: em tempos de desinformação e de crise no jornalismo, sua trajetória se torna ainda mais necessária. Lembrá-lo é, também, assumir o compromisso de seguir adiante com sua missão.


“Nunca se calou”.
Luiz Inácio Lula da Silva
Presidente da República

“O acompanhei de longe nos tempos heróicos do Movimento. É justo homenagea-lo.”
Daniel Aarão Reis Filho
Professor doutor de História [UFF]

“Raimundo Rodrigues Pereira, presente!”
Delubio Soares de Castro
Ex-presidente da CUT














