Cidade

Parem de nos matar

Nicollas Borges 

Números de 2021 demonstram que, no Brasil, morrem aproximadamente 7 ciclistas por dia no trânsito. Por muita sorte, nunca perdi nenhum conhecido, nem sofri acidente de trânsito, porém já presenciei inúmeras imprudências e infrações que colocaram a minha vida ou de amigos em risco. O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) estabelece como infrações: Art. 201: “Deixar de guardar a distância lateral de um metro e cinquenta centímetros ao passar ou ultrapassar bicicleta”. E também: Art. 220: “Deixar de reduzir a velocidade do veículo de forma compatível com a segurança do trânsito […] XIII – ao ultrapassar ciclista”. Dito isso, está claro que temos um mínimo dever de cuidado que deve existir por parte do motorista para com o ciclista, porém, não há efetiva conscientização nas autoescolas sobre isso, ou treinamento em empresas de transporte, ou políticas públicas relevantes e eficazes.

O trânsito ainda é um lugar hostil, grande parte das rodovias do estado sequer tem acostamento, e nas urbanas nem se fala sobre a existência de espaços adequados. Mesmo nos lugares que existem ciclofaixas e ciclovias, não há respeito total desses espaços, e onde não há, somos simplesmente tratados como intrusos, indesejados, e como subcomponentes do trânsito.É claro que existem também ciclistas sem noção, que descumprem as medidas de segurança, e que arriscam a si e aos outros demasiadamente, e justamente para esses vai meu pedido: preze mais pela sua vida e pela nossa imagem. Por mais que sejam exceção, muitos usam desses casos para legitimar um discurso de que somos assim, descuidados, pessoas que não deveriam estar ali, pois só atrapalham e colocam vidas em risco.

Eu também sou motorista, sei como é passar por um grupo de ciclistas e sentir em minha pele a angústia que irradia deles, de mais um veículo que se aproxima, e que não sabemos se nesse motorista reside tanto bom senso ou mesmo sobriedade(!), temendo por sua vida. Por vezes eu até atravesso para a outra faixa e dou uma buzinadinha e sei como isso me agrada quando sou eu do outro lado. E sobre reduzir a velocidade, certa vez meu pai me disse algo nesse sentido: Que alguns segundos que você deseja reduzir de sua viagem, à custa de criar um risco, não valem a pena. E complemento dizendo: Esses segundos que você tenta ganhar, podem custar a perca de anos de vida de alguém, talvez de sua própria.

Isso não é um apelo de um egoísta que fala sobre o assunto porquê lhe diz respeito, mas sim principalmente pelo fato de que vislumbramos um crescimento do número de ciclistas, seja para o esporte, ou para o deslocamento, inclusive a mais viável alternativa de redução de emissão de poluentes. Então talvez a alternativa para o futuro esteja em algo do passado. Por fim, eu digo que uma vida vale o mesmo, seja sobre quantas rodas e eixos está.

#Pracegover

Estou usando uma camiseta com estampa de várias bicicletas, de cor cinza esverdeado, ela está coberta de manchas de sangue (falso), com a marca de uma mão, e com os dizeres SOS e “Mais um invisível que se foi. Nos enxergue”. Estou de short esportivo de cor azul escura. Uso um capacete preto com detalhes vermelhos que está rachado e não está abotoado. Uso também uma luva de ciclismo de cor escura, com uma caveira estampada.

Renato Dias

Renato Dias, 56 anos, é graduado em Jornalismo, formado em Ciências Sociais, com pós-graduação em Políticas Públicas, mestre em Direito e Relações Internacionais, ex-aluno extraordinário do Doutorado em Psicologia Social, estudante do Curso de Psicanálise do Centro de Estudos Psicanalíticos do Estado de Goiás, ministrado pelo médico psiquiatra e psicanalista Daniel Emídio de Souza. É autor de 22 livros-reportagem, oito documentários, ganhou 25 prêmios e é torcedor apaixonado do maior do Centro-Oeste, o Vila Nova Futebol Clube. Casado com Meirilane Dias, é pai de Juliana Dias, jornalista; Daniel Dias, economista; e Maria Rosa Dias, estudante antifascista, socialista e trotskista. Com três pets: Porquinho [Bull Dog Francês], Dalila [Basset Hound] e Geleia [Basset Hound]. Além do eterno gato Tutuquinho, que virou estrela.

Avatar photo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *