Fernando Safatle
Opinião

Debates presidenciáveis e classes sociais

Debates presidenciáveis e classes sociais

Fernando Safatle 

Tivemos dois bons momentos de entrevistas e debates com os presidenciáveis mais bem posicionados nas pesquisas, na Globo e Band. Apesar do enquadramento do esquema que determina os debates, especialmente, como ocorreu na Band, o debate fluiu e chegou a esquentar em determinado momento. Fugindo um pouco do previsto pelos analistas políticos o tema econômico não alcançou a primazia como era esperado, a corrupção voltou a ser um dos tópicos mais bem discutidos, talvez porque fosse uma questão ainda inconclusa e não tão bem esclarecida, sobretudo, pelo fato do PT até então trata lá de forma dissimulada. Sempre quando cutucado, Lula se posicionou defensivamente, repetindo a exaustão que foi durante seu governo que os órgãos de investigação, PF, Coaf, e tudo o mais foram acionados de forma autônoma e independente, como nunca e foi exatamente por isso que a corrupção aflorou. Essa afirmativa foi incisivamente dita na entrevista da Globo e voltou a ser tangenciada na Band, passando ao largo da questão central. E qual é ela?

policia federal
Polícia Federal

Ciro tocou nela no debate da Band: o loteamento de cargos e a distribuição de cargos entre os partidos que lhe davam sustentação no governo. Esse é o modus operandi do presidencialismo de coalizão que vem perpassando  todos os governos, desde Sarney até os dias de hoje. Ou seja, não basta acionar os órgãos de fiscalização depois que a porta já foi arrombada, o que importa é não montar o esquema de loteamento de cargos e entregar as chaves aos partidos para saquearem os cofres públicos. Essa é a questão de fundo que Lula contornou e tangenciou. O receio é de que trazer de volta Gedel, Renan e outros que se lambuzaram na Lava Jato corre o risco de trazer de volta e  reproduzir tudo novamente. Quem colocou o dedo na ferida afirmando de que o erro é o modelo de gestão tanto de Lula quanto de Bolsonaro e o que importa é mudar o modelo foi Ciro. Mas o que fazer para mudar isso, essa engrenagem que nos leva irremediavelmente ser prisoneiro do centrão e inevitavelmente ao caos?

Sergio Moro

Aí é onde aparece o caráter de classe de cada um e, às diferenças se diluem como espuma, jogando todos e m um vala comum. Bolsonaro, por exemplo, confessa sua impotência e rendição ao centrão, ou seja, percebe na trajetória de seu governo que foi necessário fazer um freio de arrumação e demonstrou  sua incapacidade de governar sem a maioria que o centrão lhe fornece.  Provocado pelo Bonner lhe responde: você está me incentivando a ser ditador? É a capitulação total ao centrão. Lula questionado pela Renata, como iria lidar com orçamento secreto e com o centrão disse que conseguiria dobrar com um simples conversa e negociação, é o que ele mais sabe fazer. A Renata ficou pasma diante de sua afirmativa simplista, confirmando ser um encantador de serpente, como afirmaria em outro debate Ciro.

Jair Messias Bolsonaro – O Estado de S. Paulo

Já o Ciro respondeu uma forma uma forma um pouco mais bem elaborada afirmando que negociaria com os governadores e prefeitos e os usaria como mecanismo de pressão junto ao congresso de modo a quebrar suas resistências. Poderia ter avançado chamando a população a se pronunciar através de plebiscito, como chegou a  dizer em algum momento que recorreria para resolver algum impasse,  uma maneira mais consistente de colocar um contra peso a um congresso que se move somente em função de seus interesses de classe, mas não o fez. A Simone arrumou uma forma meio estapafúrdia de acionar alguns órgãos de fiscalização para quebrar as resistências das forças conservadoras e orçamento secreto. Ou seja, ninguém na verdade conseguiu abrir uma senda nessa bolha de resistência conservadora constituída por mais de 300 congressistas que só legisla fisiologicamente e em função de seus interesses de classe.

Ciro Gomes

Quem poderia furar essa bolha pelo seu enraizamento com os movimentos sócias seria o Lula e colocá-los na rua como única alternativa viável de pressão contra um congresso conservador, mas não o fez quando tinha as condições de fazê-lo no passado quando tinha apoio popular e já deu provas de não fazer agora, simplesmente porque não consegue ver o caráter de classe do governo, acreditando que resolve todos conflitos através de uma boa conversa. Às vezes, consegue um lampejo de lucidez e dá uma boa estocada, como aconteceu no debate da Band, respondendo a Soraya quando mostrando os bons números de seu governo que beneficiava os pobres, mas ela o questionou afirmando nunca os viu, era pura fantasia sua.

Luiz Inácio Lula da Silva – caricatura
Luiz Inácio Lula da Silva

Ele respondeu que ela não podia ter visto, mas seu motorista, seu jardineiro e sua empregada viram. Quando Lula dá estás estocadas, mesmo que seja de forma extemporânea, mostrando o conteúdo de classe de alguma de suas políticas,  sem dúvida, são os seus melhores momentos. Infelizmente, são questões apenas pontuais em seu discurso, pois não fazem parte de sua estratégia de governo, subordinada a conciliação de classe.

Palácio do Planalto

Renato Dias

Renato Dias, 56 anos, é graduado em Jornalismo, formado em Ciências Sociais, com pós-graduação em Políticas Públicas, mestre em Direito e Relações Internacionais, aluno extraordinário do Doutorado em Psicologia Social, estudante do Curso de Psicanálise do Centro de Estudos Psicanalíticos do Estado de Goiás, ministrado pelo médico psiquiatra e psicanalista Daniel Emídio de Souza. É autor de 20 livros-reportagem, oito documentários, ganhou 20 prêmios e é torcedor apaixonado do maior do Centro-Oeste, o Vila Nova Futebol Clube. Casado com Meirilane Dias, é pai de Juliana Dias, jornalista; Daniel Dias, economista; e Maria Rosa Dias, estudante antifascista, socialista e trotskista. 

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