
Livro revela como a colaboração empresarial financiou a repressão sob a ditadura
“Repressão Sociedade Anônima” mostra documentos inéditos sobre o funcionamento de unidade do DOPS na região do ABC, além da arrecadação de verbas na criação da OBAN e perseguição a trabalhadores dentro das fábricas
Renato Dias
✓ O conceito de que a ditadura de 1964 seria civil e militar está corroborado por seu novo livro?
Eduardo Reina _ Os militares não estavam sozinhos. Boa parte da sociedade corroborou para a efetivação e continuidade do golpe. Parte do empresariado, da igreja católica, da academia, dos esportistas. O apoio veio demuitos segmentos, e daí o conceito de civil. No caso do empresariado, muitos o faziam de modo velado. Surge daí o nome do livro: Repressão Sociedade Anônima.
✓ É possível apontar nomes de empresas nacionais e multinacionais que colaboraram para instalar e manter a ditadura civil e militar no Brasil?
Eduardo Reina _O livro Repressão Sociedade Anônima revela através de documentos do SNI, das Forças Armadas e outras entidades ligadas ao grupo que esteve no poder após 1964 os nomes de empresas que financiaram o golpe e a repressão, e que faturaram com a ditadura e facilitação à perseguição dos trabalhadores. As montadoras de veículos na região do ABC, VW, Ford, General Motors, Scania, Mercedes Benz, várias empresas metalúrgicas. Mas há também bancos, empresas do setor químico, petroquímico, têxtil, de limpeza, comunicação.
✓ O recorte de Repressão Sociedade Anônima refere-se à região sudeste, em qual período histórico e a quais tipos de operações?
Eduardo Reina _ Está baseado na região do ABC paulista, cinturão industrial estratégico, e compreende todo o período oficial da ditadura civil-militar (1964-1985) e até um pouco adiante. Há operações variadas, como a participação das empresas no financiamento ao aparato repressivo, a espionagem e prisão de trabalhadores dentro das fábricas, com violência; a presença de militares nessas plantas, especialmente nos setores de segurança. E abordamos ainda implicações nacionais e internacionais relacionadas ao tema.
✓ Como os documentos foram encontrados?
Eduardo Reina _ Encontramos o material através de pesquisa detalhada em arquivos públicos, como o Arquivo Público do Estado de São Paulo, Arquivo Nacional, Biblioteca Nacional, Universidade Brown – EUA, arquivos pessoais dos autores e de sindicatos. Material este que foi checado e cruzado com depoimentos de trabalhadores e sindicalistas que viveram o período. Há também muito material dentro de repositórios acadêmicos, com informações valiosas.
✓ Testemunhas relataram papéis de empresas?
Eduardo Reina _ Sim, temos testemunhos inéditos, como o de um trabalhador na GM de São Caetano, preso dentro da fábrica. Outros operários e operárias que perderam seus empregos devido a militância ou simples simpatia para com o movimento pela democracia e por melhores condições de trabalho.
✓ Ações ocorreram sob o Milagre Econômico Brasileiro?
Eduardo Reina _ Sim, dentro do período do fazer o bolo crescer para depois dividi-lo. O que não ocorreu até hoje. É para referendar esse milagre que as condições de trabalho nas empresas eram precaríssimas, pois não se parava a linha de montagem para manutenção ou reparos, e o número de acidentes de trabalho foi recordista mundial.
✓ Torturas?
Eduardo Reina _ Sim, muitas. Tanto que já foi transitado em julgado ação contra a VW, que ensejou pagamento de indenização de aproximadamente R$ 36 milhões em São Bernardo do Campo. Mesma empresa que teve entre seus funcionários Paul Stangl, nazista responsável pelos campos de concentração de Treblinka e Subibor e um programa que exterminava pessoas com problemas de ordem mental. Mas também ocorreu tortura de trabalhadores e cidadãos comuns nos bairros periféricos, entre eles menor de idade, numa filial do DOPS no ABC. Esse Dopinho do ABC ficava a poucas quadras da sede do Sindicato dos Metalúrgicos. Muitos passaram por lá.
✓ Desaparecidos?
Eduardo Reina _ Sim, na GM de São Caetano.
✓ O levantamento mostra cerco fechado até que ano?
Eduardo Reina _ Teoricamente a ditadura teria terminado em 1985. Mas a ação dos arapongas e perseguição a trabalhadores foi mantida até meados da década de 1990.
✓ Qual a principal revelação?
Eduardo Reina _ A lista de militares que atuavam nas empresas, a existência do Dopinho do ABC, a relação de equipamentos – com preços – para organização da Operação Bandeirante, quantificação do número de acidentes de trabalho que chegaram a quantias estratosféricas – mais de 5mil por dia em 1975. Também registramos as cruéis condições de trabalho para as mulheres metalúrgicas no período, e o início da participação delas nos sindicatos, entre várias outras coisas.
✓ Como foi a resistência?
Eduardo Reina _ A partir da primeira greve operária em 1978 na Scania o mundo do trabalho se transformou. O sindicalismo evolui e ganha novas frentes, atuações e formas de comunicação. Foi daí que surgiram novas lideranças nacionais, como Lula.

_ Eduardo Reina é jornalista, Mestre em Comunicação Social. Autor de Cativeiro sem fim, Depois da Rua Tutoia. Atuou na EBC, Estadão, BBC, El Pais, Diário de S.Paulo, Diário do Grande ABC entre outros. Fez assessoria de imprensa a empresas e sindicatos
_ Maria Angélica Ferrasoli é jornalista, escritora e Mestra em Comunicação, com ênfase no estudo da resistência operária durante a ditadura civil-militar. Tem premiações em jornalismo e literatura

O livro está à venda pelo site da Alameda















