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Sangue derramado

My Iram _ King Raan
شهرام ناظری ایران جوان

Renato Dias

O uso do Hijabe é obrigatório, hoje, para as mulheres no Irã. Como determinam a interpretação do Islã e o Código Penal sob o regime político dos aiatolás. Para obter o direito de ir e vir, como fazer um passaporte e sair do país, elas precisam de “autorização do marido”. O Estado ainda impõe sérias restrições legais para circularem de motocicleta. O pai deverá consentir com o casamento da filha. Não importa a idade. Já o canto feminino solo e eventual apresentação como vocalista em público são proibidos. Veja: nada de livre trânsito nos estádios em esportes masculinos. Apenas os homens podem atuar como juízes para emissão de decisões finais do Poder Judiciário.

Explosivas, as revelações são feitas ao Portal de Notícias www.renatodias.online por S.O. [A sua identidade é preservada], iraniana, 35 anos. Linda, cult, graduada em Tradução em Inglês. Mulher que conversa em persa, inglês, português e francês. Nascida em Masshad, segunda maior cidade do Irã. Localizado no Oriente Médio, o país possui 92 milhões de habitantes. O jazz é a sua preferência musical. Em qualquer momento, informa. Códigos de postura controlam também corpos dos homens, revela. É vedado, em espaços públicos, shorts curtos e camisas sem mangas, sublinha. Mostrar uma pequena parte do cabelo constitui uma infração, frisa. A Polícia Moral da República Islâmica faz a vigilância, atira.

Um fardo mental com alto desgaste emocional permanente, constante. É o que significa viver no Irã, dá o seu diagnóstico. Não é somente pressão, explica. É crescer com memórias duras [Pesadelos, medo e violência] de guerra, tensões regionais [Oriente Médio], repressão política, censura, dificuldades econômicas, sanções do mercado global, o temor da prisão, torturas e morte, até por enforcamento, lamenta. O que é comum sob o regime político teocrático dos aiatolás, insiste. Cotidiano marcado pela incerteza, sublinha. Assim como pela resiliência e a resistência possível, fuzila. A República Teocrática Islâmica do Irã é radical contra as identidades e direitos aos LGBTsQIAP+, ela revela.

As punições incluem multas, apreensão de veículos, além de aulas obrigatórias de suposta “reeducação”, assim como o vil trabalho forçado em mesquitas, denuncia. Ela conta que, na lei islâmica do regime teocrático dos aiatolás, hoje, qualquer relacionamento entre um homem e uma mulher não casados é considerado inaceitável. Mais: com stress e tensões, a sociedade civil resiste, dispara. Projetada e criada pelos aiatolás, a Polícia da Moral protagoniza atos de intimidação, força, cenas de violência, para controle de corpos e a distribuição do medo [do Estado], sublinha a tradutora. Mulheres e homens não têm direitos iguais no Irã, desabafa. Os homens gozam de privilégios, critica.

Temas como casamento, divórcio, guarda dos filhos, herança, testemunho em tribunal e até liberdade de viagem estão sob controle masculino, destaca. A interpretação do Estado da lei religiosa é que a voz da mulher deve ser silenciada em público, registra. Medida que institucionaliza a discriminação e a opressão de gênero, reclama. O apedrejamento ainda está incluído no Código Penal como uma punição implacável da mão do Estado ao adultério cometido por uma mulher casada, relata. Sentenças de apedrejamento continuam no Tempo Presente a ser emitidas, esclarece. Execuções ocorrem de forma secreta ou sob novos rótulos legais, alerta o mundo globalizado.

Os relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo são criminalizados, aponta. A tradutora denuncia assimetrias entre gêneros. O salário das mulheres é menor do que o vencimento dos homens, ela confidencia. Desigualdades estruturais, metralha. Faltam creches, espaços às mulheres de representação política e institucional, frisa. A dissidente, uma mulher além do seu tempo, decifra um enigma. Xá Muhammad Rezha Pahlavi, afastado em 11 de fevereiro de 1979, após a revolução iraniana, exercia sim um poder autoritário, centralizado, com restrições aos partidos políticos. Mesmo assim, não estabeleceu uma autocracia religiosa, traduz a história. Ele separava Estado e fé e as implicações possíveis.

As mulheres possuíam direitos, dispara. Liberdade para definir o que usar ou não, deixa claro. Elas podiam escolher entre usar ou não o Hijabe, participar da vida pública, estudar, trabalhar, além de exercer o direito ao voto secreto, afirma. A Revolução de 1979 envolveu uma ampla coalizão política, emenda. Como grupos seculares, liberais, esquerdistas [Marxistas, trotskistas, comunistas, socialistas] e ativistas religiosos, pontua. Com a vitória, os clérigos xiitas consolidaram o poder, expropriaram a revolução, estabeleceram um regime teocrático xiita, isolaram vozes seculares, liberais e de esquerda e os empurraram às margens, diz. Com prisões, torturas, execuções, exílios. O que já dura 45 anos.

A censura literária é realidade no Irã, admite. Livros, performances, teatro e também filmes estão sujeitos à restrita supervisão do Estado, conta. Publicação ou exibição requerem aprovação prévia oficial, desabafa. Artistas e intelectuais enfrentam pressão, assédio e prisão, alerta. As universidades permanecem sob rigoroso monitoramento e vigilância pelo poder estabelecido, reage indignada. Vigiados, professores e estudantes podem ser punidos e até expulsos das instituições de ensino, acusa. Medo, limitações e luta contínua pela liberdade, ela retrata. O cineasta Jafar Panahi é alvo, afirma. O realizador foi punido por falar a verdade, ataca. “O regime vê a arte independente como uma ameaça”.

Ela detalha que a sua alfabetização, ensinos fundamental, médio e superior ocorreram no Irã. Ingressar no mercado de trabalho, comprar uma casa e um carro seriam tarefas difíceis, vê. Mesmo com múltiplos empregos e extensas jornadas de trabalho, diz. É uma vida marcada por restrições, instabilidade econômica, social e longa ausência de liberdade, reporta. Andar livre com cães pelas ruas é proibido, confessa. Festas com homens e mulheres no mesmo espaço e ambiente não podem ocorrer, observa. O cenário só piora, atira. Até profissionais com doutorado executam trabalhos precários, como motorista de táxi, de baixa renda, para sobreviverem, expõe. “Não é possível suportar mais”.

Os protestos de 28 de dezembro de 2025 a janeiro de 2026 começaram no Grande Bazar de Teerã, descreve. É o coração do mundo do trabalho, da economia de subsistência, conceitua-o. No local, o colapso não poderia mais ser escondido, avalia. A crise acende uma faísca, resgata. O Irã estava pronto para explodir, narra. Crise, pobreza, humilhação chegam ao ponto de ruptura, examina. “As manifestações se espalham em velocidade: 400 cidades”. Iranianos foram às ruas de mãos vazias, conta. Não carregavam armas, garante. Não queriam violência, só direitos sociais, políticos, humanos, afirma. “O Estado corta internet, desliga linhas telefônicas e impede conexões com o mundo”.

A República Teocrática Islâmica promove um massacre, denuncia. Testemunhas veem com os seus próprios olhos, relata. Milhares de atingidos. Eles são presos, torturados, executados, feridos, cegos, amputados, mulheres estupradas, com  confissões forçadas, animais domésticos viram ainda alvos da repressão, narra a tragédia. “Violência aberta. Contra o país.” Eu conheço vítimas, testemunha. Ali Khamenei não tem base com ampla e sólida capilaridade social, acredita. Os iranianos vão dormir a noite à espera do anúncio oficial da morte do líder supremo, diz. Ali Khamenei fará 87 anos de idade. O que dá a profundidade do ressentimento, põe o tema em exposição. Legado das hostilidades, crê.

A escalada da inflação reduz o poder de compra, a pobreza cresce, o desemprego aumenta entre os jovens, até para quem concluiu o ensino superior, além do déficit habitacional, assim como grave crise hídrica que consome Teerã, ela desenha, hoje, um cenário de impacto. A observadora do Tempo Presente no Irã detecta a fuga de cérebros atrás de oportunidades no exterior. Os índices de poluição nas metrópoles, apagões com frequência, banimento do rock, sexo ainda é um tabu para o Estado e o aborto é classificado como ilegal e negado à maioria das mulheres que o solicitam, denuncia. “Uma crítica aberta e ativa ao poder pode nos levar à prisão”, ela teme. Um sintoma do mal-estar no país.

O Irã tem cíclicas crises sobrepostas, ela emite o seu parecer. Como mostram a História e os indicadores, ressalta. As suspeitas de fraude nas eleições de 2009 sacudiram o País, recorda-se. A Revolução Verde proclama “Onde está o meu voto?”, ela se lembra. A tensão e a fratura do Irã permanecem. Mahsa Amini, em 2022, jovem mulher de 22 anos, presa por causa do véu pela Polícia da Moral, hospitalizada após os maus tratos, morre já dois dias depois e Teerã volta a pegar fogo, conta. Sob os protestos de 2026, Ali Khamenei ameaça, ela afirma. “O Deus dos anos de 1980 retornará,” ele anuncia. Em explícito tom de retomada da repressão política aos dissidentes do regime teocrático xiita, condena.

explosivo

“Irã não é progressista”

Estado oprime mulheres, censura artes e fuzila jovens, denuncia Daniel Aarão Reis Filho 

O historiador Daniel Aarão Reis Filho e o Irã

Não protagoniza um papel progressista um Estado que oprime as mulheres, promove repressão política e moral, abusa da violência, persegue dissidentes, efetua prisões ilegais, realiza torturas físicas, execuções extrajudiciais, impõe a censura, silencia artistas e intelectuais e mata o seu próprio povo, analisa Daniel Aarão Reis Filho. Professor doutor do Núcleo de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense [UFF]. Pesquisador do Tempo Presente e especialista em revoluções e ditaduras.

A referência do intelectual público é ao Irã. À República Teocrática Islâmica. O escritor lembra-se que duas revoluções em1979 despertaram esperanças. Nicarágua, 19 de julho, Sandinista. A de 11 de fevereiro derrubou a ditadura laica de Mohamed Reza Pahlavi. Família no poder desde 1953. Com uma polícia política das mais violentas do Oriente Médio, frisa. Os xiitas foram perseguidos, admite. Depois da queda de Mohamed Mossadegh. Nacionalista moderado que estatiza petrolíferas, ele informa.

A revolução de 11 de fevereiro no Irã foi democrática, em frente ampla, conta. A guerra iniciada pelo Iraque, em 1980, teve duração de oito anos, consolida o poder vertical, autoritário do Aiatolá Ruholla Khomeinni, hipertrofia o Estado, fragiliza a sociedade civil e seduz intelectuais do Terceiro Mundo, do Sul Global, com o seu discurso contra os Estados Unidos e de suposta defesa da causa palestina, que acaba instrumentalizada sem solução efetiva, plausível, para os massacrados pelo Estado Sionista de Israel, ataca.

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