
Renato Dias
Uma crise terminal. É o diagnóstico do Cidadania, dá o seu parecer o professor doutor em História da Universidade Estadual Paulista, Alberto Aggio.

O resultado de dois congressos da sigla paralelos é a fragmentação partidária e uma derrota anunciada nas eleições parlamentares de 4 de outubro, ele diz.
Roberto Freire estabeleceu à legenda e a ele mesmo uma política inflexível em relação ao PT, analisa. Vendo nesse partido apenas marca do atraso, crê.
PT e Lula realizaram historicamente a consolidação da revolução burguesa no Brasil, o que queria também o Partidão, avalia o pesquisador do Tempo Presente.

Líder político com traços centralizadores e muito pouco democráticos, Roberto Freire ficou 30 anos na presidência do partido, o critica o intelectual público.
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Dois congressos nacionais disputam o controle da sigla. O que explica e é possível prever o futuro da legenda?
Alberto Aggio – O Cidadania vive uma crise terminal. O processo político que gerou essa situação de dois Congressos Nacionais vem de algum tempo. O Congresso extraordinário convocado por Roberto Freire, a ser realizado em São Bernardo do Campo, é a finalização de um processo de definição do Cidadania como um partido de centro-direita que, sob a presidência do Deputado Alex Manente, buscará uma Federação com os Republicanos do governador de São Paulo Tarcísio de Freitas. O que vai se seguir, quase que certamente, é o apoio à candidatura a presidente da República de Flávio Bolsonaro (PL). De outro lado, o Congresso Ordinário do Cidadania a ser realizado virtualmente, sob a direção do ex-deputado Comte Bittencourt, representa a maioria do Diretório Nacional (DN), derrotada judicialmente por Roberto Freire, que foi reconduzido à presidência do partido, depois de dois anos e meio. Este Congresso, na minha opinião, vai apenas marcar posição já que juridicamente o Congresso conduzido por Roberto Freire e Alex Manente assumirá a versão oficial de Congresso do Cidadania, que indicará uma nova direção e até mesmo a presidência do partido. Politicamente, o resultado é a fragmentação integral da militância partidária e uma derrota anunciada nas próximas eleições parlamentares. Será bastante improvável que o Cidadania de Freire e Manente possa vencer a cláusula de barreira. A parcela que representa a maioria do DN dificilmente seguirá com o Cidadania e vai se fragmentar em diversos partidos, conforme suas vinculações políticas nos Estados. No momento em que estamos, o fracasso eleitoral do Cidadania é a única certeza, resguardando as pouquíssimas exceções.

Dois projetos estratégicos opostos. Quais seriam os cimentos ideológicos dessa disputa?
Alberto Aggio – A trajetória PCB-PPS-Cidadania não foi o fim do PCB, como deveria ter sido. Foi bem distinto do que ocorreu na Itália com o PCI, que se dissolveu e, em seguida, se criou um partido democrático e de esquerda, como o próprio nome e a sigla afirmavam: PDS (S de sinistra) – que anos mais tarde passaria a se chamar apenas de Partido Democrático (PD). No Brasil, sob a direção de Roberto Freire ocorreu um transformismo, uma operação de máquina partidária. Com seus acertos e muito erros (e vícios), o PCB seria refundado como PPS. Inclusive, até hoje, se contam os Congressos do PPS e do Cidadania em sequência aos Congressos do antigo PCB. Foi um transformismo que já não tinha razões históricas nem futuro, malgrado o esforço de muitos que quiseram ver aí alguma possibilidade de se criar um partido de esquerda democrática. Agora, sua crise terminal anuncia o fim desse transformismo quando a opção pela centro-direita leva tanto à desintegração orgânica quanto à degradação geral. Se havia mais continuidade do que ruptura no “fim” do PCB, em 1992, agora é nítida a ruptura rumo a uma definição pela direita. É a “segunda morte” do PCB e a impossibilidade integral de construção de uma esquerda democrática de novo tipo.
Quem quer Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas?
Alberto Aggio – Na conjuntura atual, as posições políticas que vêm sendo assumidas, aberta ou veladamente, por Roberto Freire e Alex Manente indicam que o Cidadania irá se encaminhar para o apoio a Tarcísio de Freitas (Republicanos) em São Paulo e Flávio Bolsonaro (PL) para a presidência da República. O deputado Alex Manente já havia apoiado Tarcísio na eleição de 2022. O que se quer é a consolidação no Cidadania da “transa” política por recursos eleitorais, como passou a ser comum na política brasileira atual, com os partidos se oligarquizando cada vez mais e se afastando da agenda de reformas instituídas como projeto de país pela Constituição de 1988. Em segundo lugar, a perspectiva política que sustenta tal posição é estabelecida abertamente por um posicionamento antipetista e anti-esquerda, travestido de antipolarização. Em ambos planos que apontamos acima, a adesão eleitoral ao bolsonarismo não gerará nenhum trauma.

Quem quer caminhar com Luiz Inácio Lula da Silva?
Alberto Aggio – As parcelas do Cidadania que rejeitam o caminho de Roberto Freire e Alex Manente podem sim a aderir à campanha pela reeleição de Lula. Não como uma adesão acrítica a Lula e ao PT. Mas uma coisa é não ceder a uma lógica política que domina o PT, com posições historicamente dúbias em relação à democracia – vide suas posições no plano internacional e suas posições em relação à Constituição de 1988, para apenas citar duas questões –, e outra é apoiar lideranças política que apostam na erosão democrática, cultuam e se organizaram para destruir a democracia construída nos últimos 40 anos. Estamos vivendo, desde 2018, uma encruzilhada e não em uma polarização apenas eleitoral, sem nenhum efeito em relação à manutenção das instituições da ordem democrática.

Herdeiro do PCB e PPS, o caminho do Cidadania não seria com PT, PC do B, PV, PSOL, Rede Sustentabilidade, PSB, PDT? Ou não?
Alberto Aggio – Como já disse anteriormente, o problema do “fim” do PCB foi que houve mais continuidade do que ruptura rumo a um partido de esquerda democrática. A esquerda brasileira é muito diversa e muito complexa. Uma esquerda democrática poderia buscar a afirmação de um polo social-democrático que nenhum dos partidos existentes responde integralmente. Aliás, rejeitam essa opção como sendo de esquerda. O PT e Lula consolidaram o avanço do capitalismo no país por meio de uma modalidade de “revolução passiva”, cuja expressão maior é o lulismo. O lulismo ultrapassa certamente o nacionalismo pretérito da esquerda brasileira, mas sempre o utiliza de maneira instrumental; por outro lado, controla o voluntarismo e a cultura heroica do momento da fundação do PT e de suas alas mais revolucionaristas porque não quer acirrar contradições e complicar sua relação com o grande capital nacional e internacional. É a adoção de um transformismo que foi positivo nos planos econômico e social, mas muito limitado em outras áreas, principalmente na política e na cultura política. Haveria a necessidade de um outro ator político à esquerda que deveria cumprir um papel importante nesse jogo, a começar por esclarecê-lo. Os muitos partidos da esquerda brasileira se especializaram em outras dimensões dos seus projetos e não compreendem esse problema. E, pelo andamento das decisões que estão sendo tomadas, o Cidadania também está sendo cancelado e impedido de cumprir esse papel.

Fundado em 25 de março de 1922, legalizado em 1985, o PCB vira PPS, em 1992 e depois Cidadania. Qual a sua análise da evolução histórica?
Alberto Aggio – O PCB é parte da história do século XX, especialmente por sua vinculação com o Movimento Comunista Internacional, e morreu com ele. Contudo, a sombra do PCB continuou a atormentar a possibilidade de um novo caminho para a esquerda democrática, o que criou dificuldades que se evidenciaram intransponíveis. É uma história bastante complexa que precisa ser estudada. Nos últimos anos, o PCB permaneceu buscando sua inspiração nas reformas adotadas por Mikhail Gorbatchev na URSS, vocalizado a ideia de um “socialismo renovado” que também fracassou, justamente no momento em que se esgotava historicamente o projeto “nacional-desenvolvimentista” que o PCB também havia abraçado. Em termos políticos, o “fim” do PCB ocorre quando o país conquista a democracia por meio da política e não das armas, ou seja, paradoxalmente com a vitória da sua “grande política” na resistência à ditadura. O PPS nasce como um arranjo instrumental da direção partidária para recepcionar lideranças políticas de outra extração político-cultural e não como uma “formação política” nova e genuína. O Cidadania seguiu e aprofundou essa perspectiva sem efetivamente romper com o espectro pecebista que permaneceu marcando o partido. Para piorar, o Cidadania foi se deixando levar pela “transa” política que passou a marcar os partidos no estágio de erosão democrática que estamos vivendo. Há um paradoxo trágico na junção dessas duas tendências absolutamente opostas. O que se vive nesse ambiente á equivalente a uma “segunda morte” do PCB, agora sem pena nem glória, mergulhado na mais ampla degradação política e ideológica.
O que explica o discurso de ódio histórico de Roberto Freire contra o PT e Lula?
Alberto Aggio – Roberto Freire acabou estabelecendo para o partido e para ele mesmo uma política inflexível em relação ao PT vendo nesse partido apenas marcas do atraso da esquerda brasileira. O PT é uma história complexa, complicada para a construção democrática, marcado pelo pragmatismo e pela instrumentalização política, mas não é só isso. A capacidade de leitura do desenvolvimento do nosso capitalismo e sua atualização ao mundo é um traço positivo do PT, inclusive porque se deve compreender que o PT e Lula são atores que acabaram por dirigir e consolidar a prevalência do capitalismo na sociedade brasileira em meio à afirmação da democracia com tudo o que ela carrega de auspicioso e de incertezas. Em termos mais rigorosos, o PT e Lula realizaram historicamente a consolidação da revolução burguesa no Brasil por meio de uma política de alianças, com o empresariado, sempre sob sua tutela. No fundo, era isso que também queria o Partidão, mas a contraposição inflexível com o PT e com Lula não permitiu essa compreensão e uma reviravolta na política do PPS e do Cidadania. Mas essa é uma outra discussão. Apenas a título de esclarecimento gostaria que me permitisse indicar o meu livro A construção da democracia no Brasil, 1985-2025 (FAP/Annablume, 2025), no qual desenvolvo mais esse argumento.

Qual o futuro de Roberto Freire e como o dirigente entrará para a História?
Alberto Aggio – Apesar da imagem “renovadora” que Roberto Freire construiu sobre si mesmo, o fato é que a sua permanência por mais de 30 anos na presidência do partido acabou por defini-lo negativamente como um líder político com traços centralizadores e muito pouco democráticos. Ele talvez seja o grande responsável pela não permanência no partido de muitas lideranças democráticas que se aproximaram do PPS e depois do Cidadania, e se afastaram em seguida. Como líder político da luta democrática, Roberto Freire foi sagaz ao se lançar como candidato do PCB à presidência da República nas eleições de 1989. Mas como um persona da esquerda comunista brasileira, foi refratário a avanços de ideias novas, como a proposição da “democracia como valor universal”, aderindo tardiamente a ela. Da mesma forma, foi tardio ao admitir a ideia central de que o PCB deveria abandonar sua imagem revolucionária e aderir com força à ideia de um “novo reformismo” de caráter democrático que poderia dar um outro sentido à “refundação” do PCB como PPS. Por fim, a incompreensão dos sentidos desse reformismo fez com que ele mergulhasse numa perspectiva privatista e neoliberal de reforma do Estado, soldando suas aproximações primeiro com o PSDB e depois com setores mais claramente de direita, numa ação discursiva sempre muito pouco flexível. Agora, com a crise terminal do Cidadania não consigo vislumbrar propriamente um futuro político para Roberto Freire, reconhecendo apenas que ele foi um líder que não soube ceder seu lugar de protagonista para compartilhar uma construção coletiva. No essencial, tornou-se um caudilho que perdeu a dimensão histórica do partido que se orgulha de ter conduzido por mais de 30 anos.














