
Renato Dias
2026: fotografia do líder supremo Aiatolá Ali Khamenei arde em chamas. Até virar cinzas. A imagem é icônica. O velho de 86 anos que controla o poder com mão de ferro. Ele é a cara do regime político. Uma ditadura. Brutal. Instalada no Irã.

2022: 16 de setembro. O hijab de Mahsa Amini não está como “estabelecem” as regras da República Islâmica. A polícia dos costumes a prende. Ela é agredida. Com pauladas na sua cabeça. A jovem iraniana curda tem morte cerebral.

Laica, a revolução de 11 de fevereiro de 1979, capturada pelo fundamentalismo islâmico, não era o que as mulheres do Irã esperavam. Bem longe do que haviam projetado. Com a naturalização estatal da vil violência de gênero. Um horror.

O rosto e o corpo devem estar cobertos. Por um véu. Com o controle dos corpos. Os homens dão a palavra final. O percentual de participação feminina na arena política e no judiciário é reduzido. O direito de ir e vir continua limitado.

É a maior crise política desde a revolução de 11 de fevereiro de 1979. O Irã está em chamas. Não existem, hoje, números oficiais de presos, feridos e mortos. As estatísticas variam. O regime dos aiatolás impede o direito à informação.

Trabalhadores, estudantes, jovens, além de mulheres, pessoas LGBTsQIAP+ saem às ruas. Inflação, perda do poder de consumo, desemprego, escassez de água afundam a economia. Já afetada pelas sanções dos EUA ao país.

Com 90 milhões de habitantes, terceira maior reserva mundial de petróleo, o Irã enfrentou manifestações em 2009, após a divulgação do resultado das eleições, em 2019, ano de 2022, e a atual onda iniciada em 28 de dezembro de 2025.

A queda de Bashar Al Assad, na Síria, exilado em Moscou. A derrota militar do Hamas. A fragilização do Hezbollah, no Líbano. A limitação dos Houthis, no Iêmen. A inação de China, Rússia e Coreia do Norte enfraquecem o Irã.

O republicano Donald Trump ameaça bombardear Teerã. Como no ano passado. O Estado Sionista de Israel assedia a República Islâmica. Registro: a hegemonia no Oriente Médio faz parte da disputa. O sangue escorre nas ruas.



Oriente Médio sob tensão
As manifestações constituem a terceira vaga desencadeada contra a República Islâmica do Irã, um Estado Teocrático, não laico, sem a separação de religião e política, e o regime dos aiatolás responde sempre com violência, prisões, torturas, execuções. É o que denuncia o professor doutor de História Contemporânea da UFF, Daniel Aarão Reis Filho. “Ditatorial” .

“É abominável”, diz. O pesquisador do Tempo Presente lembra que a revolução insurreicional de 11 de fevereiro de 1979 no Irã era laica. Cai Xá Reza Pahlavi. Entra Aiatolá Rurolla Khomeinni. Em tempo: com a participação de civis, socialistas, trotskistas, comunistas e que acabou “expropriada pelo fundamentalismo religioso de natureza xiita do país”.
A pressa de Teerã, capital do Irã, teria um relógio que indicaria ainda o fim do Estado de Israel, pontua Daniel Aarão Reis Filho. Físicos nucleares do país querem produzir a bomba atômica para um conflito apocalíptico e catastrófico com Tel Aviv para varrer os israelenses do mapa, dispara. Longe da solução de dois estados _ Israel e Palestina _ na região.
Do Oriente Médio, relata. O Estado Teocrático do Irã não se reduz apenas à crítica e à luta contra a extrema direita de Israel, vê. Os aiatolás armam também milícias radicais no Líbano, o Hezbollah, Hamas, na Palestina, e o Houthis, no Iêmen, para enfrentar Israel, observa. Organizações teocráticas que oprimem as mulheres, ele desabafa, indignado.
Ameaça, um ataque cirúrgico e invasão territorial dos EUA ao Irã violam o Direito Internacional, desrespeitam a soberania nacional e até a autodeterminação dos povos, o que não é amparado pela ONU, informa o professor doutor da Faculdade de Ciências Sociais da UFG, Carlos Ugo Santander. É agressão externa, explica o pesquisador. Um analista da geopolítica.

Fundada em 1979, a República Islâmica do Irã, um Estado Teocrático, está longe de constituir uma democracia nos moldes ocidentais, é acusada de promover execuções, torturas, repressão violenta a protestos sociais e políticos, ele relata. Pautas de costumes opõem a Sociedade Política à Sociedade Civil, registra. Duas dimensões da crise, vê.
Professor doutor da Universidade de Sorocaba [SP], Fernando Casadei Salles observa que os movimentos da Casa Branca saem do arcabouço jurídico internacional para estabelecer a empoeirada Lei do Mais Forte. Com a cara do século XX. É geoestratégia global dos EUA, analisa. As manifestações e a violência são armas de propaganda, crê.

Com a presença de CIA e Mossad, o Irã enfrenta, hoje, nas ruas, uma “Revolução Colorida”, explica o professor doutor da Faculdade de História da UFG, David Maciel. Parciais, os conglomerados de comunicação criam o clima para derrubada do regime, sublinha. O que amplificaria a revolta popular, sublinha o docente. Adepto das ideias de Karl Marx.

O regime dos aiatolás é uma ditadura teocrática, denuncia. A ofensiva, hoje, de Donald Trump no Irã não é pela defesa do Estado Democrático de Direito, nem dos direitos humanos, das mulheres ou LGBTsQIAP+, ele dispara. A disputa geopolítica com a China, pelo controle do Oriente Médio e o acesso às reservas de hidrocarbonetos motivam as operações,
David Maciel mostra desinformação no mundo referente à escalada, conta ainda que os protestos da população são legítimos e têm motivações econômicas e sociais, frisa que o bloqueio imposto ao país pelos EUA, como à Venezuela e Cuba, contribuem para agravar a crise, avalia. Uma agressão dos Estados Unidos e também de Israel, ressalta.
Vice-reitor da Universidade de Gurupi, Tocantins, o professor de História e Sociologia, Paulo Henrique Costa Mattos, detecta o que define como uma “narrativa histórica” construída por Washington DC para o exercício de sua hegemonia global. Assim ele analisa as ameaças pela ausência de democracia, liberdades individuais, coletivas e direitos no Irã.

Mais: uma flagrante destruição, hoje, no século XXI, do Direito Internacional, resume o intelectual público. É a sua vocação imperial, destaca o escritor. O republicano Donald Trump é cada vez mais explícito, critica. “O rei está nu”, metralha. Veja: a agressão é a norma, a regra, não uma exceção, reitera o especialista em Relações Internacionais.

Geopolítica
A Cortina de Ferro dos EUA
Os EUA baixam uma cortina de ferro em volta do seu condomínio privado no Ocidente, já Donald Trump enrola nos pescoços a Linha de Greenwich e com ela estabelece uma Cortina de Ferro planetária, alerta Itamar Borges. Graduado em Letras e tradutor de Inglês e Francês para o Português, ex-militante do extinto Comitê Gregório Bezerra [CGB] e um admirador especial de Leon Trotski.

A diversionista necessidade de derrubar para ontem a República Islâmica do Irã, um Estado Teocrático, além de repressivo nos costumes, em nome da suposta laicidade, democracia e direitos humanos, com uma intervenção bélica, deveria exigir também o imediato fim do Estado do Vaticano, teocracia e opressor nos costumes, questiona o pensador. Em uma análise contemporânea original.
EUA, Israel, Reino Unido e até a França financiam os protestos que deixam, hoje, o Irã em chamas, com o dedo em riste aponta Frederico Vitor de Oliveira. Jornalista e historiador, com expertise em Geopolítica Mundial e em questões militares, ele faz o diagnóstico de que estaria em marcha uma “Revolução Colorida”. O que inclui a queda do regime teocrático dos aiatolás, ele explica.

Donald Trump II põe em marcha projetos geopolíticos expansionistas agressivos, alerta. Primeiro, a elevação explosiva de tarifas comerciais no mercado, diz. Segundo, ataca a Venezuela e sequestra Nicolás Maduro e Cilia Flores, revela. Terceiro, o Irã está na alça de mira da Casa Branca, CIA e Pentágono, atira. Uma campanha não está descartada. Por ar, terra e mar, calcula o estudioso do tema.
Ideias
A esquerda no divã

A geopolítica global não pode servir como mordaça moral e deve permitir críticas tanto à ameaça dos Impérios dos EUA e Israel ao Irã quanto à violência da República Fundamentalista dos Aiatolás, avalia o presidente da primeira zona do PT de Goiânia, Edilberto de Castro Dias.

Não existe papel progressista externo que justifique a opressão interna, diz o advogado. O regime xîita persegue cineastas, ataca mulheres e LGBTsQIAP+, acusa. Uma ditadura cruel que sequestrou a revolução de 1979, vê. “A sociedade exige democracia e laicidade”.
Professor de História, marxista, Reinaldo de Assis Pantaleão [Unidade Popular] afirma que os Estudos Unidos querem controlar as riquezas naturais do Irã, impor o seu poder militar, impedir uma eventual agressão ao Estado de Israel, além da instabilidade no Oriente Médio.

O ativista da esquerda socialista admite que o Irã é uma Teocracia, frisa que o Aiatolá Ali Khamenei mantém mão de ferro e persegue dissidentes. O que não podemos aceitar, desabafa. A soberania do país, o respeito à autodeterminação e ao direito são inegociáveis, alerta.
Mestre em Ciências Políticas, Aldo Arantes [PC do B] diz que Donald Trump não se preocupa com democracia e direitos humanos, apoia ditaduras como a da Arábia Saudita, e quer mesmo é o petróleo e impactar o papel estratégico do Irã na região do Oriente Médio.

A aliança construída entre Irã, China, Rússia e Coreia do Norte, um arco que faz um contraponto ao imperialismo, é a questão de fundo, explica. É claro que existe um problema interno, componente real da crise, na economia, com implicações das sanções dos EUA, vê.
O presidente da República dos EUA, Donald Trump, republicano conservador, é um “gangster”, ataca Euler Ivo Vieira [PC do B], ex-vereador em Goiânia e ex-presidente da legenda da foice e do martelo. “Ele usa a expressão: Faça o que eu mando, não faça o que eu faço”.

Professor de História, o sindicalista e trotskista Fred Frazão [PSOL] aponta, hoje, o crescimento demográfico do país, a redução do PIB, a escalada da inflação, o desemprego aos mais jovens, o luxo das elites como o combustível para a atual convulsão social no Irã.

A Alternativa Socialista Internacional define o regime como uma ditadura, sai em defesa da plataforma de luta dos manifestantes e condena as ameaças a Teerã tanto de Donald Trump quanto de Benjamin Netanyahu. Não à guerra e apoio aos jovens e trabalhadores, diz.
Mais: físico e mestre em Engenharia Nuclear, Arthur Otto [Cidadania] frisa condenar o expansionismo dos EUA. Ele rejeita a violação da soberania e da autodeterminação dos povos. Assim como defende o respeito ao Direito Internacional. À carta da ONU, informa.

O ativista repudia ainda a repressão aos protestos no Irã e critica os ataques aos dissidentes do regime teocrático dos aiatolás. Além da violência às mulheres, pessoas LGBTsQIAP+ e também aos direitos humanos. É necessário parar a máquina de Donald Trump, alfineta.
Labaredas

Irã na alça de mira
Um país atravessado por contradições, o Irã, hoje, enfrenta protestos populares, crise econômica, dependência excessiva dos combustíveis fósseis, sob o bloqueio econômico dos EUA, analisa o presidente da CTB, Fernando César Mota.

A República sofre também com inflação, desemprego, além da perda do poder de consumo da população e a repressão da polícia dos costumes, que vigia corpos e comportamentos, ele explica. As mulheres constituem alvos, frisa.
Criminalização de pessoas LGBTsQIAP+, imprensa amordaçada, internet cortada, presos, feridos e mortos nos atos, revela. O Irã tem papel central na geopolítica do Oriente Médio, relata. “Contraponto aos sionistas de Israel: Benjamin Netanyahu”.
Com 90 mi de habitantes, identidade cultural, étnica e política, alvo de sanções econômicas, ataques militares, em crise hídrica, o Irã testemunha protestos sociais, ameaças externas e choques culturais, vê Márcio Santilli, diretor do ISA.

Um país que se urbanizou, construiu uma sociedade moderna, classe média robusta, sob um Estado Teocrático, com padrões culturais e comportamentais conservadores, pouco permeáveis às mudanças do Tempo Presente, ele diz.
O filósofo e ambientalista Márcio Santilli observa também que a crise atual possui elementos internos fortes em um contexto externo de sérios conflitos no Oriente Médio e de uma ameaça hostil de bombardeios dos EUA, sublinha.
Presidente atual da Associação dos Professores Universitários de Gurupi [TO], Gilberto Correia crê que a escolha não é entre Washington DC ou Teerã. “Projeto de emancipação condena a violência dos EUA e a tirania dos Aiatolás”, frisa.

A ameaça de Donald Trump de atacar o Irã é, sim, execrável, critica. Ela viola o Direito Internacional, insiste. Com reforço à lógica imperialista, destaca. A denúncia não nos impede de acusar um regime que apedreja e persegue dissidentes, diz.

Guerra híbrida no Irã
Betty Almeida
O Irã, antiga Pérsia, é uma das mais antigas culturas do sudoeste da Ásia. Está situado à beira do Golfo Pérsico, entre o Iraque, a oeste, e o Afeganistão e o Paquistão, a leste, banhado ainda pelo Golfo de Omã e pelo Mar Cáspio. Com uma área de 1 648 000 km2, o Irã é o 16º maior país do mundo em território, o que equivale aproximadamente à área do estado do Amazonas, no Brasil, ou um pouco mais do que as áreas de Angola e Portugal somadas.Com uma história milenar, em que já foi um vastíssimo império, sofreu a conquista e dominação. A antiga religião zoroástrica foi substituída, durante a dominação árabe, pelo Islã.

Hoje o Irã é uma República Islâmica, governada por aiatolás, altas autoridades muçulmanas. A Revolução Constitucional Persa de 1906 criou o primeiro parlamento da nação, que antes era uma monarquia constitucional. Mais tarde, em 1953, o primeiro-ministro nacionalista Mohammed Mossadegh, que mantinha a exploração de petróleo fora do controle dos Estados Unidos, foi deposto por um golpe de Estado executado pelo Reino Unido e Estados Unidos em 1953, que empossou Reza Pahlavi, governante submisso aos EUA, enquanto Mossadegh definhou até à morte na prisão.

Más condições de vida e a opressão do regime do Xá Reza Palahvi gerou uma grande revolta interna, que explodiu em 1.º de abril de 1979 com a Revolução Iraniana. Foi criada a República Islâmica, sob o comando do chefe supremo, Aiatolá Khomeini. Essa Revolução teve forte apoio popular e o Irã saiu da esfera de influência política dos EUA. Foi um dos países fundadores da Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep). O crescente antagonismo com os EUA, devido aos interesses comerciais relativos ao petróleo levou à inimizade política e diplomática declarada. Os Estados Unidos impuseram sanções econômicas contra o Irã, que dificultaram seu desenvolvimento econômico e trouxeram sérias dificuldades para sua população.

O Irã pertence aos Brics, a mais importante frente mundial de oposição à hegemonia dos Estados Unidos, que consegue minar a supremacia do dólar como moeda nas transações comerciais entre países. O Irã também consegue parceiros comerciais fora da esfera de influência dos Estados Unidos, o que desperta a ira estadunidense. Mas, com uma altíssima inflação, a insatisfação popular com o governo dos aiatolás começou a tomar a forma de manifestações de amplitude crescente. A dura repressão do governo transformou parte do apoio popular em oposição ferrenha. A revolta atual contra o governo iraniano, a princípio legítima, é estimulada por agentes da CIA, do Mossad israelense e dos serviços secretos ingleses. Acirra-se na chamada guerra híbrida, que tem por objetivo derrubar o governo iraniano e substituí-lo por outro mais submisso à política externa estadunidense, principalmente na questão do petróleo.

Trump não ousaria agir como na Venezuela, país com menos recursos de defesa, mas tenta uma ofensiva maciça nos moldes da guerra híbrida, agindo sobre a população, atormentada pela inflação estratosférica e a deterioração de suas condições de vida – na maior parte provocada pelo bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos. Os governantes do Irã mostram-se dispostos a reagir à agressão externa, como já o fizeram por ocasião de ataque dos EUA a instalações de pesquisa nuclear do Irã. Douglas Macgregor, ex-assessor do Secretário de Defesa dos EUA, crê que outra guerra dos EUA/Israel contra o Irã corre o risco de desencadear uma guerra mundial ao envolver a Rússia e a China e teme a reação do Irã.

Com a perda gradual da supremacia do dólar e a ascensão da China como potência econômica e política, aliada da Rússia, que mesmo depois do fim da União Soviética mantém um importante poderio econômico e militar, a crise do capitalismo manifesta-se geopoliticamente, como ao longo de séculos, na agressão a países que contrariam seus interesses, procuram sair de sua esfera de influência e desafiam sua dominação.

Os Estados Unidos invocam pretextos de toda ordem para intervenções militares. No Iraque, alegaram a construção de armas químicas, o que se revelou falso depois do Iraque ter autorizado uma inspeção por autoridades da ONU. Note-se que os Estados Unidos têm um arsenal perigosíssimo, composto de armas químicas, biológicas e nucleares com capacidade de destruir o planeta várias vezes, mas policiam incansavelmente o resto do mundo, impedindo que outros países desenvolvam armas para sua própria proteção. O Irã não tem armas nucleares, mas seu desenvolvimento tecnológico no campo permitiria a construção dessas armas. Por isso os EUA já atacaram instalações de pesquisa tecnológica nuclear do Irã e assassinaram vários importantes cientistas nucleares iranianos.

Mas o pretexto principal dos EUA para agredir o Irã está em uma suposta defesa dos direitos humanos dos iranianos. Os Estados Unidos, que possuem pena de morte, prisão perpétua e violam constantemente os direitos humanos não só de seus próprios cidadãos, mas também de populações de outros países, com sequestros, assassinatos, muitas vezes em massa, tortura, prisões ilegais e injustificadas, à revelia de qualquer norma jurídica e humanitária, se arvoram em guardiães zelosos dos direitos humanos dos iranianos. A opção homoafetiva é criminalizada no Irã (como em outros países muçulmanos), mas não se deve ignorar que existe uma forte discriminação nos EUA, especialmente no exército e já ocorreram sangrentos conflitos em ruas e bares, com muitas mortes. A situação das mulheres é interpretada pelos olhos ocidentais como de opressão total. Mas na verdade, embora submetidas à dureza das leis corânicas e vigiadas, como toda a população, pela polícia moral do regime, elas têm acesso à educação, participam ativamente da pesquisa científica e tecnológica e são empresárias em moda e vários ramos da economia.

Por outro lado, com a financeirização, os sistemas produtivos em todo o mundo deterioram-se e a classe trabalhadora perde suas formas tradicionais de organização em sindicatos e se desagrega. Também perde força pelo fato de que a classe dominante tem hoje a possibilidade de lucros financeiros especulativos sem a intervenção do trabalho. No Irã teocrático, submetido a forte repressão governamental e a uma renhida guerra de desinformação, não há uma saída apontada por organizações trabalhistas ou por partidos políticos. Trump, diante das contradições em seu próprio país, que ele não tem condições de resolver, parte para a intervenção armada em outros países, na tentativa de manter a dominação política e econômica que lhe renda meios para enfrentar sua crise nacional. Essas agressões são o último recurso imperialista para manter sua hegemonia política mundial ameaçada. Apesar de seu enfraquecimento econômico e político, o poderio militar ainda aparece como arma eficaz, malgrado muitos fracassos e sucessos duvidosos desde o século passado. Trump é ousado em suas provocações, talvez tendo em mente que seus maiores adversários, China e Rússia, aliados e possíveis protetores do Irã, preferem evitar uma guerra com os EUA e construir, a longo prazo, a multipolaridade no mundo.

Porém, a insanidade de Trump tem freios: talvez o Congresso estadunidense simplesmente não permita outros ataques como o da Venezuela. A Europa combalida econômica e financeiramente não suportará seguir os EUA em sua aventura rumo a uma terceira guerra mundial. Além disso, a disposição do Irã é resistir. E tem recursos para isso, como bem sabe Trump. O Irã tem o direito de resolver internamente seus conflitos sociais e de procurar uma saída para suas dificuldades econômicas. Se os Estados Unidos suspendessem o bloqueio econômico, isso sem dúvida levaria o Irã, de imediato, a uma melhor situação econômica e aliviaria os sofrimentos impostos à sua população. O cerco econômico que o Irã vive há uma década é ainda agravado por sanções dos aliados dos EUA.

A repressão violenta aos protestos será, ao que tudo indica, mitigada pelo risco que representa para imagem do país diante da opinião pública mundial. Será muito duro enfrentar a implacável guerra de contrainformação do ocidente hostil a uma sociedade que tem uma cultura e valores tão diferentes dos seus. A proteção desses valores, o sentimento nacionalista e mesmo a fidelidade aos princípios religiosos terão um importante papel na defesa do Irã contra seus agressores externos, no esforço da reconstrução econômica e no apaziguamento dos conflitos sociais. Mas o principal é a demonstração inequívoca do Irã de que tem disposição e capacidade para defender-se, mesmo diante do imenso aparato bélico dos seus adversários. Tanto os EUA como Israel sabem, à exaustão, que apesar da destruição que estão sempre dispostos a provocar, a vitória militar não lhes é garantida diante de adversários corajosos e heroicos como os que já enfrentaram outras vezes.

Betty Almeida é professora doutora aposentada da Universidade Federal da Paraíba [UFPB] e escritora













