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Terrorismo de Estado

 

explosivo
Chico Buarque, Apesar de você

Renato Dias 

Caracas, 3 de janeiro de 2026, às 2h01, no horário local. Operação cibernética impõe suspensão de energia, dá pane nos radares, impede baterias antiaéreas e permite ataque surpresa. Uma série de explosões ocorrem em unidades militares e em três estados. Com 150 aeronaves.  Em 51 minutos, os EUA sequestram o presidente da República da Venezuela, Nicolás Maduro, e Cilia Flores. A “Operação Resolução Absoluta” foi executada pela Força Delta. Especiais.

Donald Trump anuncia que os EUA irão administrar o país. As reservas de petróleo, as maiores do Planeta, estarão sob o controle total dos conglomerados econômicos norte-americanos, ele avisa. Sem compromisso com os Acordos Climáticos, a Casa Branca continuará com os combustíveis fósseis como a sua principal matriz energética. A maior economia do mundo. Um espião da CIA estaria infiltrado no Palácio de Miraflores. A sede do poder político. Na Venezuela.

Um planejamento estratégico detalhado de longo prazo. Com focos no petróleo e no ouro. Uma monumental mobilização de soldados para a operação. Promessa de recompensa de US$ 50 milhões. Os mortos ultrapassam o número de 40. A resistência possível, frisa Breno Altman, editor do Opera Mundi. O Chavismo não caiu. O poder está em disputa.  Hugo Chávez morreu em 5 de março de 2013. É o fundador da República Bolivariana. A velocidade da queda impressiona.

Após assumir o segundo mandato, em 2025, o senhor da guerra financia Israel para destruir a Palestina, solta bombas no Irã, ataca o Iêmen, no Oriente Médio, assedia a Nigéria, África, repassa ainda dinheiro, armas e munição à OTAN e Ucrânia, instala bases navais e aéreas no Caribe, promove invasão militar da Venezuela e ameaça Colômbia, México, Cuba e Nicarágua. As eleições de outubro de 2026 no Brasil estariam também no radar do “Império Donald Trump”.

Sem autodeterminação nem soberania 

Injustificável. É como o professor doutor do Núcleo de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense [UFF], Daniel Aarão Reis Filho, conceitua o ataque dos EUA à Venezuela, o sequestro do presidente da República, Nicolas Maduro, de sua mulher Cilia Flores e os bombardeios com mais de 40 mortes.

A agressão merece o repúdio veemente da América Latina e do mundo, acredita. Contra a violência e prepotência dos EUA, denuncia. “O direito à autodeterminação dos povos é sagrado, inviolável, universal.” Conciliar com violação dos princípios apontados é jogar o mundo em um processo caótico e imprevisível, diz.

Professor doutor da Faculdade de História da Universidade Federal de Goiás [UFG], David Maciel observa que a ofensiva dos EUA contra a Venezuela não define ainda a manutenção ou não do regime bolivariano, está longe de revelar os papéis de China e Rússia, além de não estabelecer data para as eleições. 

Muita propaganda e pouca efetividade, explica. O pesquisador afirma que a operação sangra o chavismo e pode inviabilizar a sua continuidade. Inédita, a situação é grave, admite. Não deve ser negligenciada, sublinha o intelectual marxista. A ideia de roubar o petróleo do país é evidente, dispara o docente.

O Brasil poderá ser o próximo alvo em 2026 ou 2027, faz o alerta David Maciel. O escritor prevê ainda eventual tentativa política de desestabilização na campanha eleitoral de outubro com o financiamento da extrema direita. A institucionalidade na qual o Lulismo confia, hoje, está morta, ele fuzila.

A professora doutora de História da UFG, Alcilene Cavalcante, avalia que o ataque de Donald Trump balança a geopolítica mundial. Ele irá se apropriar da maior reserva mundial de petróleo e dar um novo fôlego à economia, pontua. Capitólio, Judiciário e opinião pública dos EUA enfrentarão um dilema ético, frisa.

O da defesa ou violação da soberania, democracia e direito internacional da América Latina, atira. Perspicaz, ela relata que a ação não teria sido tão rápida sem a colaboração das Forças Armadas da Venezuela, como no Brasil em 2 de abril de 1964, ao golpe parlamentar de 2016 e ao 8 de janeiro.

Os agentes do capital internacional, supostos patriotas, operam na Venezuela e Brasil para os interesses dos EUA, insiste. Eles incendeiam Caracas e empurram os civis para o desespero, desabafa Alcilene Cavalcante. Lamentável início de ano, reclama. Típico dos vermes traiçoeiros, reage indignada.

Professora doutora de História da PUC [Goiás], Lúcia Rincón, adepta das ideias de Karl Marx [1818-1883], informa que os EUA violam a soberania e a autodeterminação da Venezuela, desrespeitam o direito internacional e mostram a voracidade do capital que impede o desenvolvimento independente.

Donald Trump se acha um semiDeus, critica. Mais: a Casa Branca quer é se apropriar da riqueza do país, sublinha. É preciso nos mobilizarmos e sair às ruas, avenidas e praças, ela propõe. Para protestos ruidosos em defesa da soberania e também da democracia na América Latina, recomenda a ativista.

Inquietante. Assim Fernando Casadei Salles define a situação da Venezuela. Professor doutor de Educação da Uniso [SP], ele diz que tanto por sofrer derrota militar tática com o sequestro de Nicolás Maduro quanto por não protestar com as massas nas ruas. “Cenário tem, hoje, prognósticos difíceis de serem feitos”.

Um ataque de Terrorismo de Estado. Assim define a operação dos EUA na Venezuela o professor doutor de Ciências da Religião, Antônio Lopes. Em 3 de janeiro de 2026. A Venezuela é dona dos maiores poços de ouro negro do mundo e nem Donald Trump quer esconder os seus interesses nas reservas, registra.

O intelectual público não descarta a possibilidade de Nicolas Maduro ir parar na prisão de Guantánamo. O Brasil pode sofrer retaliações e até ser atingido por campanhas de desestabilização política até as eleições de outubro, crê. O que terá um impacto devastador no desempenho da extrema direita no país, conta.

Washington perverte ainda mais a lógica da desigualdade imposta pelo centro do capitalismo neoliberal à periferia do sistema global de poder, revela Antônio Lopes a @renatodias.online Obsoletos, o Conselho de Segurança da ONU e a OEA não podem tomar nenhuma medida efetiva contra o ato inaceitável, atira.

Mais uma afronta de Donald Trump ao mundo, afirma o ex-reitor do IFG Paulo César Pereira. Os interesses econômicos da Casa Branca atropelam a soberania, dispara. Com o uso de falsos pretextos, ele explica. A América do Sul está sob ameaça de Washington, adverte. O poder dos EUA ronda nossas fronteiras, alerta.

O ataque à Venezuela não atinge apenas a República Bolivariana e tem também como alvo o Brasil, analisa Vladimir Safatle, professor doutor da USP. No site A Terra é Redonda. “Colonialismo 3.0”, conceitua. Terceira onda com pilhagem e força bruta, informa. A próxima fronteira é o nosso quintal, já avisa o filósofo.

Aldo Arantes

Sindicatos em alerta 

Violação do direito internacional 

O presidente da CTB, seção de Goiás, Fernando César Mota, é a confirmação da manutenção no século 21 da política intervencionista dos EUA. Anunciada com o deslocamento de forças aérea, naval e terrestre ao Caribe, avalia. Donald Trump é um autocrata, analisa. A situação é perigosa, admite o sindicalista. O ataque e o sequestro ferem o Direito Internacional, denuncia. EUA não são polícia global, diz.

O direito internacional não prevê nem permite a invasão de um país por outro, observa o advogado, jornalista e presidente da Associação Goiana de Imprensa [AGI], Valterli Guedes. Donald Trump contribui com o ataque para a derrocada a médio prazo da extrema direita mundial, acredita. A acusação de suposto narcoterrorismo contra Nicolás Maduro é furada, não procede, resume.

Líder da extrema direita mundial, Donald Trump afirma que o seu interesse é o petróleo e mostra que o conceito do século 19 de imperialismo continua atual, sublinha o presidente do Sindsasc, do Distrito Federal, Clayton de Souza Avelar. O que afeta a autodeterminação e ainda a soberania dos povos, frisa. Nicolás Maduro foi sequestrado em novo patamar da pirataria oficial, condena.

A intervenção militar na Venezuela e o sequestro do chefe de Estado revelam grave violação da soberania e integridade territorial, observa o diretor do Dieese e do Sindsaúde, Ricardo Manzi. Um ato de agressão, vê. Interferência direta, ataca. Com desestabilização da América Latina, relata. O que inclui o Brasil, conta. “A relação EUA e Brasil é marcada por intervenções como em 1954, 1964, 2016”.

O que diz a esquerda brasileira

 

A Internacional Comunista

O sociólogo Julio Turra, dirigente do PT, DAP, O Trabalho, IV Internacional e CUT, trotskista, denuncia o bombardeio a Caracas e a três estados, os sequestros de Nicolás Maduro e Cilia Flores e frisa flagrante desrespeito ao direito internacional. Violação da soberania, avalia. Gustavo Petro, Claudia Sheinbaum e Lula devem liderar ação e enfrentar o imperialismo norte-americano, cobra.

Donald Trump diz que os EUA irão administrar a Venezuela, ele narra. Em uma postura colonial, registra. O republicano não esconde a intenção de colocar as empresas petrolíferas dos Estados Unidos para operarem no país, alerta. “O que exige a defesa do direito internacional, da democracia com ações imediatas de repúdio à intervenção militar e de solidariedade ao seu povo.”

A Venezuela tem o direito inalienável à autodeterminação, informa Vera Lúcia, operária e líder nacional do PSTU. De linhagem trotskista. EUA querem se apropriar e controlar as reservas de petróleo do país, ela explica. No ataque não há preocupação com a fome e o desemprego do povo, pontua. Donald Trump até possui um acordo para acesso às terras raras do Brasil, avisa.

Presidente da República, Nicolás Maduro havia sim instalado uma ditadura no seu próprio país, denuncia. Um governo autoritário que oprime os trabalhadores, define-o. Mesmo assim, a agressão é inaceitável, registra a ativista gauche. Uma invasão a qualquer país não pode ser aceita, insiste. Com fundamento no direito à soberania dos povos e Estados, dispara.

O ex-vereador e dirigente do PC do B Euler Ivo Vieira sublinha que Donald Trump usa uma lógica de gangster. Ele quer roubar o petróleo da Venezuela, revela. Nicolás Maduro recusou acordo para fugir e mostrou firmeza, relata. A luta seguirá, aposta. “É um processo de aprendizagem às massas”. Para o abandono das ilusões, diz. Os EUA foram derrotados no Iraque, Afeganistão e Síria.

Marxista, o historiador Reinaldo de Assis Pantaleão, um dos líderes da Unidade Popular [UP], aponta violação do direito internacional, lembra que até a Europa condena a operação de Donald Trump, ataca o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores e denuncia a extrema direita. EUA querem administrar o petróleo do país, afirma. É necessária uma reação contundente contra os EUA, propõe.

Professor de História e sindicalista, Fred Frazão, membro do PSOL, tendência LSR, seção da Alternativa Socialista Internacional, recorda-se que em 2002 a classe trabalhadora derrotou tentativa de golpe de Estado civil e militar apoiado pelos EUA e hoje precisa derrotar o imperialismo mais uma vez. O ativista quer uma Venezuela socialista integrante da Federação Livre da América Latina.

Economista marxista, Fernando Safatle [PSB] diz que o final de Nicolás Maduro teria sido melancólico. Sem esboçar uma firme resistência, lamenta. Não optou pela saída de Salvador Allende, critica. O desfecho da sua queda foi humilhante, crê. Um julgamento por um tribunal dos EUA, ataca. A história da Venezuela não termina com a sua prisão, insiste. É o início de longa jornada de lutas, vê.

O quadro é de indefinição, dúvidas e incertezas, analisa o físico e engenheiro nuclear Arthur Otto [Cidadania]. Donald Trump tem uma obsessão pelo poder, diagnostica. Ele quer a reatualização da Doutrina Monroe, afirma. O ataque é grave, desabafa. O conflito pode escalar, confidencia. O que seria uma insanidade, declara. Já que poderia também envolver potências com armas nucleares, ele teme.

Advogado, assessor parlamentar e presidente da Primeira Zonal do PT de Goiânia, Edilberto de Castro Dias repudia a invasão militar da Venezuela, ação política unilateral dos EUA, com flagrante violação da soberania e desrespeito ao direito internacional. Imperialista, vocifera. Um ataque à autodeterminação dos povos, dispara. Medida que ignora as resoluções da ONU e da OEA, ele lamenta.

Presidente do PT de Palmeiras de Goiás, o sindicalista Jairo Pereira alerta para o risco político de desestabilização da América Latina. O líder petista detecta sinais de ameaças da extrema direita na região. Preocupante, define. Não podemos tolerar rupturas autoritárias, insiste. Nem invasões a países por potências imperialistas, metralha. Para a preservação da paz mundial, fuzila.

Resolução Absoluta 

Entre sequestros e resgate

Donald Trump sequestrou o presidente da República da Venezuela, Nicolás Maduro, a primeira-dama, Cilia Flores, e já exigiu o resgate, diz, com ácida ironia, Itamar Borges. O governo e o petróleo do país, alfineta. Com as próprias palavras emitidas pelo republicano. Graduado em Letras, tradutor de inglês e francês, ele é ex-militante do Comitê Gregório Bezerra [CGB]. “Ato criminoso de extorsão”, frisa. Operação Resolução Absoluta e Solução Final são típicas dos fascismos, diz.

Historiador e jornalista, especialista em Geopolítica Internacional e com expertise em questões militares, Frederico Vitor de Oliveira considera estranho a limitada resistência armada, a velocidade dos sequestros de Nicolás Maduro e Cilia Flores, a falta de baixas nos EUA, os radares da Venezuela, de fabricação russa, não detectarem 150 aviões e helicópteros e não terem abatido inimigos. O pesquisador vê supostos sinais de traição. Breno Altman discorda. A Venezuela não está morta, atira.

O ataque tem face imperial e constitui uma afronta à Carta das Nações Unidas, inciso 4°, artigo 2°, que impede o uso da ameaça ou força contra a integridade territorial ou independência po­lítica de Estado, observa o advogado com expertise em Direito Internacional e Relações Ex­te­riores, Fernando Luiz Dolci. Os EUA querem petróleo, resume. Não é democracia, crê. O Brasil corre risco de ingerência nas eleições de outubro para favorecer a extrema direita, reage

Uma nova ordem mundial começa a se instalar e o Império se desnuda, ressalta o ex-presidente da FETEG Altino Barros. Trotskista, ele observa que os EUA têm disposição de usar a força por interesses econômicos e geopolíticos. Presidente da República da Venezuela, Nicolás Maduro deve enfrentar um duro e longo calvário, prevê o ativista de esquerda. As eleições de outubro do ano de 2026, no Brasil, sofrerão uma forte ingerência internacional, acredita o líder socialista.

O sequestro do presidente da Venezuela

Betty Almeida

Professora doutora da UFPB e escritora

Os puritanos ingleses que saíram da velha Inglaterra para o Novo Mundo achavam que sua missão, de natureza divina, era construir uma nova sociedade, mais pura e perfeita. Isto implicava em uma superioridade sobre o resto da humanidade, em especial as populações nativas, que deveriam ceder espaço à ocupação civilizadora. Os descendentes dos nativos até hoje são considerados subalternos, sujeitos ao primado dos colonizadores do mundo. Essa ideia prosperou e predominou através dos séculos, até chegar ao estágio em que os Estados Unidos consideram-se a polícia do mundo, incluindo os europeus em sua jurisdição hegemônica, noção reforçada depois do papel na vitória contra o nazismo na segunda guerra. Mas essa polícia age, como muitas polícias, como bandidos da pior espécie. A lista dos crimes de seus governantes é extensa e assustadora.

Em 1953, o primeiro-ministro nacionalista do Irã, Mohammed Mossadegh, que não queria entregar a exploração do petróleo do país aos EUA, foi derrubado pela CIA e os serviços secretos britânicos e mandado para a prisão. O presidente dos EUA era Dwight Eisenhower. No Brasil, em 1964 um golpe militar apoiado pelos EUA, ainda governados por Lyndon Johnson alijou do governo o presidente João Goulart, que foi substituído por uma ditadura militar. Em 1965 o general Sukarno foi derrubado do governo da Indonésia e substituído pelo general Suharto, que em uma semana assassinou mais de meio milhão de membros do Partido Comunista Indonésio, o maior do mundo. A guerra contra o Vietnã arrastou-se de 1955 a 1975. 

O exército dos EUA não conseguiu derrotar guerrilheiros mal alimentados e seminus e a derrota política dos EUA levou-os a deixar o país. Em 1973 os Estados Unidos governados por Lyndon Johnson derrubaram e mataram o presidente Salvador Allende, eleito segundo os processos e rituais democráticos. Os EUA invadiram o Iraque em 2003 e prenderam Saddam Hussein, presidente que foi  conduzido aos Estados Unidos, onde foi julgado e condenado à morte. Saddam foi executado em 2006. Muhammar Khadafi, chefe de estado da Líbia, foi assassinado em 2011 e seu cadáver vilipendiado na rua, por uma multidão enraivecida, instigada diretamente pelos EUA.

No século XIX James Monroe, então presidente dos EUA estabeleceu uma política que ficou conhecida como Doutrina Monroe, sintetizada pelo slogan: A América para os americanos. Há uma questão de linguagem envolvida: o continente inteiro se chama América, em homenagem a Américo Vespucci, ou Américo Vespúcio, o navegador italiano que primeiro teria demonstrado a existência daquela terra. Mais tarde, depois da independência dos habitantes da região norte do continente, um país ali se estabeleceu e foi chamado de Estados Unidos da América. América então, passou a ser o nome do continente e do país. 

O continente tem um estreitamento ao centro, que praticamente o divide em dois: um é a América do Norte e o outro a América do Sul, existindo ainda um trecho no meio, chamado América Central. A hegemonia política e econômica dos Estados Unidos da América, consolidada depois do papel desempenhado na vitória sobre o nazismo na segunda guerra mundial, é também cultural e faz com que os nacionais do país sejam denominados americanos. Determina ainda que os naturais dos países da parte central e sul do continente, em alusão à ocupação pela Espanha e Portugal, sejam chamados latino-americanos. América Central e América do Sul juntas transformaram-se em América Latina. Atualmente, procura-se não usar o nome de “americano” para designar os naturais dos Estados Unidos da América. Eles passar a ser nomeados como “estadunidenses”.

Os Estados Unidos, desde o século XVIII, têm uma influência importante sobre a economia dos países da América do Sul. Essa influência inclui interferir nas economias desses países, obstaculizando sua industrialização e tornando esses países reservatórios de recursos a serem, quando necessário, utilizados pelos EUA. A referência insultuosa à América do Sul como “quintal dos EUA” reflete a visão dos EUA em relação aos países da parte sul do continente. Países rebeldes, como Cuba e Venezuela, sofrem sanções que inibem o comércio com outros países do mundo. Seus cidadãos, especialmente em Cuba, sofrem a falta de diversos produtos, o que prejudica imensamente a vida de suas populações. Cuba sofre a falta de medicamentos devido ao bloqueio econômico imposto pelos EUA há 66 anos. 

CIA _ EUA

Os governantes dos países da América do Sul que tentam estabelecer políticas nacionalistas sempre encontram a violenta resistência dos governos dos EUA. Militares nacionalistas no Peru e na Bolívia foram depostos e o mesmo acontece recorrentemente com governantes civis em outros países. Outras modalidades de controle são o assassinato, o golpe institucional ou parlamentar, como aconteceu com Msnuel Zelaya em Honduras em 2009, com o presidente Fernando Lugo no Paraguai em 2012, e com Dilma Roussef no Brasil em 2016. Candidatos com programas políticos que não apoiam os EUA sofrem derrotas eleitorais, pois seus adversários dispõem de recursos muito abundantes, que lhes  garante a vitória. 

Em todo o mundo, e em especial na América do Sul e América Central, os EUA usam a política do Big Stick, de seu presidente Theodore Roosevelt, que acreditava em usar a diplomacia, mas também em impor a política de interesse dos EUA pela força, inclusive militar, em caso de resistência local. A situação atual, entretanto, ultrapassa as visões mais inacreditáveis. Os Estados Unidos, encurralados pelo fim da supremacia do dólar e ameaçados com a ascensão da China socialista e da Rússia, potências econômicas e militares que rivalizam hoje com seu poderio decadente decidem, sob o comando insano do seu presidente Donald Trump, ocupar a Venezuela, país onde se encontram as maiores reservas de petróleo conhecidas no planete. A decisão não foi resultado de consulta ao Congresso, nem passou por consulta ao Conselho de Segurança da ONU: foi tomada arbitrariamente pelo presidente.

Quando decidiram invadir o Iraque, os EUA inventaram um pretexto: o Iraque estaria construindo armas atômicas. Ora, os Estados Unidos possuem um arsenal atômico suficiente para destruir o mundo várias vezes, mas em sua posição de polícia do mundo, acha que tem o direito de impedir outros países de possuir armas atômicas para se proteger. O pretexto para invadir a Venezuela e sequestrar seu presidente é igualmente absurdo e grotesco: o presidente Nicolás Maduro é acusado de ser traficante de drogas. Ele e Cilia Flores, sua esposa, deputada, foram sequestrados pelo governo dos EUA, que segundo Trump, promoverá seu julgamento pelas leis dos EUA. A vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, foi declarada pelo Tribunal Supremo de Justiça presidente em exercício durante a ausência forçada de Maduro, que continua a ser o presidente do país.  Donald Trump proclama que assumirá a exploração de petróleo da Venezuela, confirmando que o motivo do sequestro do presidente e de sua esposa e da intervenção na Venezuela foi de fato a exploração do petróleo.  

O ato de Trump, além de violar a soberania da Venezuela, e atentar contra a autoridade de seu presidente, abre um precedente gravíssimo na América Latina. É de se temer, a partir de agora, que toda vez que um país da América do Sul tiver riquezas cobiçadas pelo governo dos EUA, seus chefes de estado estarão sob o risco de serem sequestrados e o país poderá sofrer a intervenção dos EUA. Nicolás Maduro, eleito segundo os rituais democráticos em 2023, é tratado de ditador. Na época de sua eleição, a oposição, inconformada com a derrota, promoveu uma onda de agitação contra a vitória de Maduro, confirmada pelos tribunais eleitorais. Diante do destino de Saddam e de Khadafi, deve-se temer por Maduro e assegurar sua defesa à luz do direito internacional e da carta das ONU.

Vários países, como Colômbia, Bolívia, Peru (que rompeu o tratado de cooperação militar com os EUA, firmado em 6 de dezembro de 2025) e Cuba, declararam seu repúdio ao ato dos EUA e exigem a devolução de Nicolás e Cilia Maduro. China e Rússia condenaram o ataque à Venezuela e o sequestro, A França, embora apoiando a ação contra Maduro, condena a violação de soberania e o desrespeito à carta das Nações Unidas. Países como o Irã afirmaram que continuarão o apoio tecnológico para que a produção de petróleo na Venezuela não sofra obstáculos e descontinuidades. Lula condenou o ataque e conclamou a ONU a “responder de forma vigorosa” ao episódio.

Os Brics devem apoio à Venezuela, mas enfrentam o risco da retaliação dos policiais do mundo, com seu bg stick que já se abateu sobre a Venezuela. Mas a ação de Trump é indefensável, e mesmo uma ONU desmoralizada, como se provou na recente guerra de Israel contra Gaza, tem o dever de tratar com seriedade o problema, e evitar que a América Latina sucumba sob o big stick de Trump.À luz da geopolítica, um aspecto da ação de Trump não pode ser ignorado: é uma provocação aberta à China e Rússia, que aumentam sua influência na América Latina. Donald Trump, desesperado, não hesitaria em lançar o mundo em uma terceira grande guerra para tentar recuperar sua hegemonia mundial e barrar a multipolaridade que avança.

Podemos considerar ainda que, no quadro da luta de classes em escala internacional e na reorganização da divisão de trabalho no mundo, surge um novo impulso nos anseios de independência dos países da América Latina, que não querem, definitivamente, continuar a ser “quintal” dos Estados Unidos e compreendem que, sem remover os obstáculos ao seu desenvolvimento impostos pela dominação econômica dos Estados Unidos, estarão sempre relegados à subalternidade, apesar de seus diversos e abundantes recursos naturais, capazes de garantir um desenvolvimento econômico que permita o fortalecimento de suas classes trabalhadoras e abra perspectivas para a transformação social sob a direção dessas classes.

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