
1935-2025
90 anos depois

Renato Dias
O transporte público passa a ser gratuito. O dinheiro do erário para no bolso dos trabalhadores. Um decreto estabelece a redução dos preços no comércio. Oficiais de baixa patente pegam em armas. Eles tomam o poder de assalto. Primeiro, em Natal [RN]. Depois, com atraso, Recife [PE] e no Rio de Janeiro. Insurreicional, o projeto era derrubar Getúlio Vargas e instalar também o socialismo no Brasil. Madrugada de 23 de novembro de 1935. Apesar de programado para o dia 27 do mesmo mês, o levante é antecipado. Com mortos, feridos, presos, dura quatro dias, sofre derrota e perde a batalha de narrativas. A revolução entra à História. Como a Intentona Comunista. Episódio usado como espantalho. Pelas direitas.

O personagem central da operação é o ex-capitão do Exército Brasileiro Luiz Carlos Prestes. Ao lado da revolucionária alemã judia da Terceira Internacional Comunista Olga Benario. Veja: a tática, ultraesquerdista, havia sido formulada pelo Komintern. Sob a presidência de Dmitri Manuilsk. Ex- seminarista da Geórgia, Ióssif Vissonariovich Djugatchvilli com o nome de guerra Joseph Stalin, é quem controlava a URSS. Mais: o farol do socialismo no mundo. O Partido Comunista do Brasil [PCB], fundado em 25 de março de 1922, em Niterói, por nove operários, cria uma frente mais ampla. A Aliança Nacional Libertadora. Informes dizem que país possui cenário ideal à revolução. Com “as condições objetivas”.

Críticas

Interpretações da insurreição
Insurreição revolucionária frustrada de 23 a 27 de novembro de 1935, longe de ser a depreciativa Intentona Comunista, diz 90 anos depois o professor doutor da Universidade Federal Fluminense [UFF], Daniel Aarão Reis Filho. Intentona é uma palavra reservada para conspirações empreendidas nos quartéis, explica.

O escritor conta que a Aliança Nacional Libertadora [ANL], fundada em abril do mesmo ano, em carta aberta lida por Carlos Lacerda, não teria arquitetado o levante. Reservado ao PCB e Komintern, a Terceira Internacional criada em 1919, na Rússia, por Vladimir Ilich Ulianov [Lênin] e Lev Davidovich Bronstein [Trotski].

A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas [URSS] deu suporte político e estratégico ao movimento, revela. A Internacional realizava a transição à nova estratégia, registra. A de formação de frentes populares contra a ascensão da extrema direita, nazismo na Alemanha, fascismo na Itália. Cenário paradoxal.

Daniel Aarão Reis Filho contesta William Waak, nega a proeminência de uma tutoria da URSS em “mexer os pauzinhos” do Kremlin, afirma que a documentação mostra que revolucionários acreditavam na iminência da revolução no país. Ela se desdobra em três episódios, sublinha. Natal, Recife e Rio de Janeiro, atira.
A decisão de deflagrar a insurreição de 23 a 27 de novembro de 1935 foi baseada em análises equivocadas, já que não havia à época uma conjuntura revolucionária, pontua. Uma ilusão, ataca. Mesmo assim, os comunistas nunca fizeram uma autocrítica, vê. O que serviu de mote à propaganda das direitas, frisa.

Especialista no tema, o professor doutor de História da Universidade Federal de Pernambuco, Marcos Guedes, registra ainda que o Brasil entra no final do século XIX e início do XX em um período tenso de altas transformações econômicas e sociais e disputas políticas. Após, Estado Novo, 1937, e levante da AIB, 1938.
Apesar da Constituição Democrática de 1934, a esquerda aponta uma solução autoritária, admite. País latino-americano com velhas tradições caudilhescas, diz. O Estado, sob o início da segunda guerra mundial [1939], flertava com o fascismo, lembra. A consolidação da democracia ocorre somente em 1988, metralha.
Uma insurreição política e militar para desencadear a revolução no Brasil sem conexão com as massas trabalhadoras da cidade e do campo que acabou derrotada. Assim define 27 de novembro de 1935 o professor doutor da Faculdade de História da Universidade Federal de Goiás [UFG], David Maciel. Marxista.

Apesar do fracasso, ele deu vazão à uma mitologia fabricada pelas Forças Armadas que alimenta o anticomunismo e a tradição autoritária das corporações militares, ele informa a @renatodias.online. “Inverdades que apontavam suposto fuzilamento de pessoas que dormiam e de ruptura com a hierarquia”.

Contraponto
Na contra corrente da história
A insurreição de 27 de novembro de 1935 não deixou nenhum legado efetivo à luta histórica pela emancipação dos trabalhadores, afirma o sociólogo Julio Turra [SP]. Um dos últimos suspiros da política do Terceiro Período do Komintern É o que avalia, hoje, o adepto das ideias do russo Leon Trotski [1879-1940].

O Terceiro Período teve consequências nefastas ao movimento operário mundial, informa. Como a divisão que levou Adolf Hitler ao poder na Alemanha, em 1933, conta. A orientação que definia o SPD, de esquerda, como social-fascista, destaca. Um discurso ultraesquerdista de costas à frente única, reclama o revolucionário.

Política que impulsiona tentativas de golpes de Estado sem sustentação das massas populares, resume. Além de no Brasil ser mal planejada, critica. Explode primeiro em Natal, antes da data prevista, o que permite violenta repressão no Rio de Janeiro e em Recife, a reconstitui. Milhares de sindicalistas presos, frisa.

Repressão contra os trabalhadores e o sindicalismo livre, dispara. Getúlio Vargas ainda não havia montado a estrutura sindical corporativista inspirada na Carta Del Lavoro, de inspiração no fascismo de Benito Mussolini, Itália. Logo depois, em 10 de novembro de 1937, golpe do Estado Novo, conta Julio Turra.

Memória
História de um “equívoco”
Um historiador “nada entusiasta” da insurreição de 23 a 27 de novembro de 1935, Fred Frazão a classifica como uma “quartelada”. Fruto de uma equivocada análise de conjunturas, observa. Tanto nacional quanto internacional, crê. A começar pelos informes enviados pelo então secretário-geral do PCB Miranda.

Os relatórios informam que as condições objetivas estavam “maduras para o levante”, relata. Luiz Carlos Prestes, chamado de Cavaleiro da Esperança, executa a tática ultraesquerdista da Terceira Internacional, insiste. Política que registrara derrotas na Alemanha, Hungria, Inglaterra e China, ele mostra.

Especialista em Geopolítica Mundial e em Questões Militares, o historiador e jornalista Frederico Vitor de Oliveira é taxativo e aponta legado de fracasso de 1935. A aventura em armas para a tomada de poder contra o regime instalado em 3 de outubro de 1930 foi um verdadeiro delírio à esquerda, critica.

Não houve adesão popular imparável e inquebrantável, diagnostica. Ele criou o germe do anticomunismo nas Forças Armadas, reitera. A facção anticomunista se tornou hegemônica de 1935 a 2025, aponta. O que pode ser visto na tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, na capital da República, dispara.

Herdeira das ideias formuladas por Karl Marx [1818-1883], Friedrich Engels, Vladimir Ilich Ulianov, a insurreição de Natal, Recife e Rio de Janeiro, de 23 a 27 de julho, compõe a história da luta de classes no Brasil, avalia Rosemar Cardoso Maciel. Um ativista gauche da Frente Brasil Popular. Resistência, diz.

O engenheiro e revolucionário diz que o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, nunca foi comunista. Mesmo assim é herdeiro de 1935. Ele cita ainda verso da canção de Lô Borges e Milton Nascimento. “Porque se chamavam homens também se chamavam sonhos e sonhos não envelhecem”, canta.


Memórias reveladas
Os ventos da revolução

Bruno Benfica Marinho
No dia 23 de novembro de 1935 o quartel da Polícia Militar em Natal foi atacado e caiu na mão dos revolucionários da Intentona Comunista no Rio Grande do Norte, precipitando o movimento que se repetiu no Recife e Rio de Janeiro. Na manhã seguinte, Natal estava completamente dominada pelos revolucionários.
Na residência do governador que havida buscado refúgio no Consulado italiano, foi estabelecida a sede dos rebelados, onde formou-se uma junta provisória de governo, autodenominada Comitê Popular Revolucionário, que era formada pelo sapateiro José Praxedes (secretário de Abastecimento); sargento Quintino Barros (Defesa); Lauro Lago (Interior e Justiça); estudante João Galvão (Viação); e José Macedo (Finanças), este último funcionário dos Correios e Telégrafos.
O sapateiro José Praxedes notabilizou-se com um dos personagens mais proeminentes da Intentona Comunista no Rio Grande do Norte, ao anunciar a instituição de um Governo Popular Revolucionário à população em praça pública, e ainda liderar um saque à agência do Banco do Brasil do bairro da Ribeira em Natal e distribuir parte do dinheiro para a população.
O movimento rapidamente espalhou-se para o interior do Estado, sendo que quase metade dos prefeitos municipais foram substituídos, praticamente sem resistência, por simpatizantes da Aliança Nacional Libertadora – ANL. Instalou-se verdadeiro pânico na classe dos latifundiários, pois o alvoroço causado pelo movimento insurgente junto aos camponeses foi profundo e estes passaram abertamente a exigir a partilha da terra trabalhada diretamente aos proprietários rurais. Eram os ventos da Revolução.
A minha avó Joaquina Antunes, a Vevinha, nascida em 1909 no Rio Grande do Norte, nos contava que naqueles dias de Intentona, em novembro de 1935, um caminhão com militares revolucionários esteve na Fazenda São Pedro, onde ela morava com o meu avô Virgílio Benfica, em busca do paiol de armas pertencente à João Câmara, empresário e líder político local, cunhado do meu avô.

Meu avô recebeu os militares revoltosos com toda calma e deferência, serviu vinho do porto aos insurgentes, que nada encontraram na fazenda e foram embora. Nesse dia minha avó achou que iam matar o meu avô Virgílio. Ficou desesperada, pegou o revolver dele, envolveu-o num lenço e enterrou a arma no quintal para evitar que fosse usada.
Finda a visita dos militares, tomou uma bronca do Virgílio, o detalhe é que a arma nunca mais foi encontrada, pois no momento do nervosismo, a minha avó sequer mais se lembrava onde havia enterrado o revólver. Meu Tio Sissi, primogênito do meu avô Virgílio Benfica, entrincheirou-se com uns poucos homens armados com espingardas, para defender a usina de beneficiamento de algodão do tio dele, João Câmara, na cidade de Baixa Verde, usina que os revolucionários pretendiam ocupar.
O fato é que os revolucionários não conseguiram ocupar a usina, pois logo veio a reação das tropas federais vindas do Recife e João Pessoa para sufocar o movimento. Minha avó contava que nos dias da intentona, os trabalhadores da Fazenda São Pedro, onde ela morava com o meu avô Virgílio, foram na sede indagar ao meu avô como iria ficar a situação deles daí para frente.
Com o fim do movimento, meu avô demitiu todos trabalhadores reivindicantes mais vocais. Conduta seguida por todos os proprietários rurais da região que assistiram perplexos, e virtualmente arruinados, a efêmera mudança de regime no Rio Grande do Norte.















