

Renato Dias
A esperança derrotou o pesadelo. Sob a tensão geopolítica mundial de janeiro de 2026. Longe da Venezuela. Distante do Irã. Afastado da Groenlândia. Alvos do “apetite imperial” de Donald Trump. Nas urnas, em Portugal, eleições ao Palácio Nacional de Belém, fundado em 1910, residência oficial do presidente da República e sede de trabalho do chefe de Estado. Localizado em Lisboa. A capital do país. A esquerda socialista promove uma virada épica e vence a extrema direita. Antônio José Seguro [PS] obtém 31,1% dos votos válidos. André Ventura [Chega] atinge 23,5%. Simbólico.


Com quase 11 milhões de habitantes, crescimento do PIB de 1,9%, acima da média da Comunidade Europeia, inflação sob controle de 2%, desemprego baixo de 5%, pressionado pelo envelhecimento populacional, o país enfrenta paradoxos. O mercado de trabalho real exige, hoje, mão de obra de imigrantes. Mais: uma parte da população os rejeita. A onda de xenofobia anaboliza o discurso da extrema direita. Tanto que o Chega, sigla herdeira das ideias de Antonio de Oliveira Salazar, ditador, cresceu no parlamento. Com André Ventura, a legenda disputa o segundo turno. Em 8 de fevereiro.



O que está em disputa
Com características fascistas, a extrema direita cresce, hoje, no mundo, observa o professor doutor de História da Universidade Federal Francisco Carlos Teixeira da Silva. André Ventura, do Chega, em Portugal, Europa, defende ideias de Antônio de Oliveira Salazar, ditador de 1926 a 1969, informa o pesquisador do Tempo Presente.

Neofranquista, o Vox, sigla da Espanha, está em franca ascensão, diz. O escritor relata ainda diferenças na extrema direita da França, Hungria, Áustria e até Polônia. Com uma linha política antiamericana, vê. A visão é de que os Estados Unidos roubam a independência, os recursos e enfraquecem a Europa, explica. As tropas dos EUA seriam de ocupação, pontua.

O projeto do republicano Donald Trump de anexar em 2026 a Groenlândia, uma ilha que pertence à Dinamarca, membro do Tratado do Atlântico Norte [OTAN], consolida a concepção de que a Casa Branca não quer a Europa como um aliado estratégico em condições reais de igualdade, vê. “O que significa a redução do papel da Europa como ator global”.

Já o professor doutor de Arquitetura e Economia Urbana [PUC Goiás e UniEvangélica], Lenine Bueno Monteiro, lembra que nas eleições em Portugal os temas dos imigrantes, do mercado de trabalho, a crise da economia, com a onda de xenofobia que sacode a Europa tensionaram e polarizaram o País. À esquerda e à extrema direita, relata.

O professor doutor de Ciências da Religião, Antônio Lopes, informa ainda @renatodias.online que as esquerdas mobilizaram os eleitores para reduzir o índice de abstenção, promover a virada e derrotar a extrema direita nas urnas. “André Ventura [Chega] seria, hoje, a versão com bacalhau e vinho do Porto de Jair Messias Bolsonaro”, ele faz a leitura.

As probabilidades de vitória, em Portugal, no segundo turno das eleições presidenciais, dia 8 de fevereiro de 2026, apontam para o líder socialista Antônio Seguro, avalia o peruano Carlos Ugo Santander. Ele é professor doutor da Faculdade de Ciências Sociais da UFG. Moderado, ele amplia o leque de alianças e isola-o com um cordão sanitário, diz.

Em um contexto tanto interno quanto externo em que a extrema direita, hoje, se coloca como alternativa possível de poder, frisa o cientista social e político. “Para que não promova uma erosão por dentro das instituições de Estado da democracia contemporânea”, diz. Ele refere-se à ideia de Como morrem as democracias, de S. Levitsky e D. Ziblat.

Tática é derrotar extrema direita
Presidente da primeira zona do PT de Goiânia, o advogado Edilberto de Castro Dias acredita que é, sim, possível barrar a ascensão da extrema direita em Portugal, na Europa, América Latina e nos Estados Unidos das Américas. Nas eleições no ano de 2026, informa o operador do Direito. O que inclui o Brasil, em outubro, sublinha. Com Luiz Inácio Lula da Silva.

O Partido Socialista [PS], em Portugal, deve atrair no segundo turno partidos políticos de centro, centro direita e da até da extrema esquerda, como o Bloco de Esquerda [BE], o Partido Comunista [PCP], além dos Verdes, para consolidar a democracia, afirma o advogado Luiz Carlos Orro [PC do B] a renatodias.online Perspectiva de frente ampla, diz.

À época de Mario Soares, o PS era uma sigla hegemônica no cenário político em Portugal, recorda-se o professor de História Reinaldo de Assis Pantaleão [Unidade Popular]. Os tempos mudaram, admite. Mesmo assim é possível barrar eventual ascensão da extrema direita ao Palácio de Belém, calcula o adepto do velho barbudo Karl Marx [1818-1883].

A roupagem fascista da extrema direita no mundo, com Donald Trump [EUA], e em Portugal, liderada por André Ventura, do Chega, afasta a classe média e ainda parte das classes trabalhadoras do seu projeto de poder autoritário, xenófobo, misógino e excludente, observa Arthur Otto [Cidadania]. Ele é físico e mestre em Engenharia Nuclear. Ativista político.


Trabalhadores organizados
Protagonismo é retomado
Presidente da CTB, da Seção de Goiás, Fernando César Mota admite ser possível impor uma derrota eleitoral e política à extrema direita em Portugal. Ancorado na história do Tempo Presente, ele diz que a experiência europeia indica que ela não será definitiva. O exemplo político do país desmonta a ideia de um suposto avanço seu irreversível no continente, explica. Mesmo com a crise, o medo e o ódio, crê. Há rejeição ao discurso de ódio e à natureza autoritária da extrema direita,vê.

O resultado do primeiro das eleições presidenciais em Portugal é uma sinalização alvissareira, avalia, hoje, o sindicalista João Pires, dirigente do Sint-Ifesgo. Novos tempos, ele anuncia. Não será fácil, revela. O Império sangra, avalia. Já no Brasil a esquerda sai da estratégia defensiva, como em 2022, retoma o protagonismo político em 2026, apesar do provável cerco dos EUA e poderá ganhar as eleições presidenciais em outubro próximo, diz o líder sindical.

Fundador do histórico Movimento de Luta Pela Casa Própria [MLCP], responsável por conquistar casas, apartamentos, lotes e materiais de construção para 50 mil pessoas em Goiás, o marxista Euler Ivo Vieira afirma, hoje, a renatodias.online que a extrema direita será derrotada já no próximo 8 de fevereiro. André Ventura é o nome do Chega. Legenda com traços do empoeirado salazarismo. Socialista, Antônio José Seguro assumirá o Palácio Nacional de Belém. Novo chefe de Estado.


Portugal e as urnas
Betty Almeida
No primeiro turno das eleições presidenciais em Portugal o socialista Antonio José Seguro, ex-secretário-geral do Partido Socialista (PS), de centro-esquerda, ficou em primeiro lugar, com 31,1% dos votos. André Ventura, o candidato do Chega (CH), partido da extrema direita, foi o segundo mais votado, com 23,5%. do total. A ascensão quase meteórica da extrema direita em Portugal pode ser constatada comparando a votação alcançada pelo CH nas eleições legislativas de 20019, correspondente a 1,29% dos votos, que lhe garantiu apenas um deputado na Assembleia da República, com os 22,8% obtidos nas legislativas do ano passado. Hoje o Chega tem 60 deputados na Assembleia da República (segunda maior bancada) e foi o terceiro partido mais votado nas legislativas de 2025. Ainda assim, sua ida ao 2° turno das presidenciais surpreendeu.

Mas sua derrota no 2º turno não pode ser considerada certa, apesar da vantagem de quase 8% de Antonio José Seguro. Ao enfrentar vários candidatos, Antonio José Seguro teve os votos de oposição a ele distribuídos entre candidatos de direita e centro-direita apresentados por forças políticas importantes, como a Iniciativa Liberal (IL), 16%; o Partido Popular (CDS-PP) coligado com o Partido Social Democrata (PPD-PSD), 11,30%. O independente Henrique Gouveia e Melo, almirante da Marinha Portuguesa, que goza de ótima reputação por sua atuação na campanha de vacinação contra a Covid e por sua carreira militar, obteve 12,32% dos votos. Esses votos à direita e centro-direita representam cerca de 40% do total. Não iriam todos, contudo, para Ventura, que tem uma forte rejeição no eleitorado português.

Já os votos em candidatos mais à esquerda do PS foram em número pouco expressivo: 2,06% para Catarina Martins, do Bloco de Esquerda (BE); 1,64% para Antonio Filipe, da coligação do Partido Comunista Português (PCP) e o Partido Ecológico Os Verdes (PEV); 0,68% para Jorge Pinto, do LIVRE, Os candidatos independentes também tiveram votação inexpressiva: são o músico e professor Manuel João Vieira, uma espécie de anticandidato, com 1,08% dos votos; o sindicalista André Pestana (0,19%); e o lúmpen Humberto Correia (0,08%) que podem ser identificados à esquerda. Representam em torno de 5% do total dos votos.

O jogo das alianças para o segundo passaria pela conquista, por Seguro, do eleitorado de direita e centro-direita. O independente Henrique Gouveia e Melo seria um grande apoio, capaz de garantir um aumento significativo em sua vantagem em relação a Ventura. O conservador CDS-PP dificilmente apoiaria publicamente o PS. De João Cotrim de Figueiredo, que se apresentou em campanha como a única alternativa ao socialismo, também muito provavelmente não viria apoio para o PS, mas deve-se notar que ele também disse que “é óbvio que não quer André Ventura como presidente”. Restaria a Antonio Seguro buscar apoio no PSD, a centro-direita tradicional, pró-europeia, privatista e otanista?

O eleitorado português é politizado e na classe trabalhadora ainda podem persistir resquícios da organização e ativismo da época da Revolução dos Cravos. Mas na onda mundial de ascensão da direita, a desagregação da classe trabalhadora devido às novas relações trabalhistas precárias dificulta a reunião para a organização e mobilização dos trabalhadores na luta por suas reivindicações. Soma-se a isso a hostilidade aos migrantes, concorrentes no mercado de trabalho que se encolhe com a financeirização. Esses fatores fazem muitos descontentes escolherem o voto na extrema direita.

André Ventura não será um adversário fácil de enfrentar. Contará com apoios internacionais, como Bolsonaro no Brasil. Antonio Seguro precisará de muita habilidade para conquistar o apoio das forças políticas de centro-direita e mesmo da direita para vencer no segundo turno. Muitos apostam em sua vitória, mas ele precisa avaliar criteriosamente a correlação de forças e fazer uma campanha cerrada, capaz de convencer o eleitorado de que é a melhor alternativa para os portugueses. Seguro tem pouco mais de duas semanas para isso. No Brasil, a eleição presidencial poderá ter uma configuração semelhante, com muitos candidatos contra Lula no 1º turno, e que (com a ajuda de Donald Trump) poderão se unir e infligir derrota a Lula no 2º.

Betty Almeida é professora doutora aposentada da Universidade Federal da Paraíba [UFPB]

Valerio Arcary














