Home»Política»A arca de Lula em 2023

A arca de Lula em 2023

3
Shares
Pinterest Google+

Márcio Santilli

O presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, ainda não nomeou os seus ministros e não precisou o número de pastas que seu governo terá. Ele disse que pretende recriar os ministérios da Cultura, Indústria e Comércio, Desenvolvimento Agrário e Igualdade Racial. Uma novidade pode ser uma pasta específica para os Povos Originários. As informações sinalizam um ministério maior.

Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin

O Gabinete de Transição, constituído sob a coordenação do vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, inclui representantes de treze partidos políticos, quatro a mais que os integrantes da coligação vitoriosa. Lula tem repetido que está aberto a conversar e a incorporar outros mais à sua base parlamentar, inclusive partidos que apoiaram Bolsonaro na eleição. Supondo-se que todos os partidos que integrarão a aliança governista estarão representados no ministério, é provável que teremos a composição ministerial mais eclética da nossa história. As sinalizações do presidente da participação no governo de segmentos empresariais e movimentos sociais também indicam um ministério maior.

Guilherme Boulos e Luiza Erundina
Guilherme Boulos e Luiza Erundina

Essas forças políticas heterogêneas têm em comum a preservação da ordem democrática, a disposição de tirar o país do fundo do poço e do isolamento internacional. Em outras palavras, a ampla coalizão de governo terá a missão histórica de reconduzir o país à normalidade institucional e ao convívio pacífico com os demais povos e países. Lula tem afirmado que não pretende disputar a reeleição, o que significa admitir, no seu extenso arco de alianças, vários potenciais nomes para 2026, como Geraldo Alckmin, Simone Tebet, Guilherme Boulos, Marina Silva e Fernando Haddad. A sorte deles dependerá do seu desempenho no governo. Mais à direita, Romeu Zema e Tarcísio de Freitas, governadores de Minas e de São Paulo, são candidatos naturais, além do próprio Bolsonaro.

Simone Tebet [MDB-MS]
Lula volta para reunir os cacos do sistema político-partidário devastado pelas passagens pelo poder do PMDB, PSDB e PT, com os seus respectivos aliados, que se degenerou na experiência anticivilizatória que o Brasil viveu com Bolsonaro na presidência. Lula lidera uma coalizão rumo ao desconhecido que ainda precisa ser construído. A crise climática provoca grandes tempestades e inundações, com o despejo de volumes enormes de chuva em pouco tempo. Mas o seu perfil dominante é o da extensão dos períodos de seca, e não o de dilúvio. Assim mesmo, a imagem da Arca de Noé é inspiradora para a missão de Lula nesse terceiro mandato.

Os generais de Jair Bolsonaro

O mercado andou nervoso, cobrando de Lula uma rigidez fiscal que não vinha cobrando de Bolsonaro e, em grande medida, assistiu calado a degradação política promovida no seu mandato. O que há de concreto sobre a mesa é a chamada “PEC da Transição”, para assegurar, no orçamento de 2023 e dos anos seguintes, os recursos para continuar pagando o auxílio de R$ 600 aos mais necessitados. O combate à miséria e à fome será a questão central para Lula, com a qual o mercado se dispôs a conviver nos últimos anos, mas sem conseguir resolver. No mais, há rumos gerais que estão dados, mas não se deve esperar muitos detalhamentos neste período de transição. As definições sobre as políticas públicas virão do esforço constante de mediação, pelo presidente e pelo núcleo central do seu governo, junto às forças políticas representadas no ministério.

Fome no prato no Brasil

Lula esteve na COP27, conferência da ONU sobre as mudanças climáticas, que ocorre em Sharm el-Sheikh, no Egito. Antes mesmo da sua posse, reinseriu o Brasil nas negociações multilaterais sobre o tema. No governo, terá que reinserir o país nos esforços pela redução das emissões de gases do efeito estufa, que provocam o aumento da temperatura média na superfície da Terra. Para isso, muitas medidas terão que ser acordadas entre as forças políticas e os atores sociais e econômicos envolvidos. Toda a biodiversidade política brasileira – que se disponha – está convocada para construir consensos sobre novos rumos para o país. Por exemplo, sobre como enfrentar a emergência climática global.

Aquecimento global

Márcio Santilli é filósofo, sócio-fundador do Instituto Socioambiental (ISA). Autor do livro Subvertendo a gramática e outras crônicas socioambientais. Deputado federal pelo PMDB (1983-1987) e presidente da Funai de 1995 a 1996

 

Previous post

Psicóloga diagnostica silêncio no Planalto

Next post

Pau no Teto de Gastos

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *