Home»Opinião»Pandemia ou Sindemia?

Pandemia ou Sindemia?

0
Shares
Pinterest Google+

Ideias

Pandemia ou Sindemia?

 

Flávio Sofiati

O mundo tem vivenciado desde o final de 2019 um surto epidêmico provocado pela COVID-19 que, no caso brasileiro, há um ano tem matado milhares de pessoas e comprometido a vida de praticamente toda a população. As instituições em geral, inclusive a grande imprensa, tem tratado o tema por meio do conceito de pandemia que consiste na disseminação mundial de uma doença. No entanto, enfrentamos atualmente uma pandemia ou uma sindemia?

A definição do termo não significa uma simples escolha, opção ou capricho de cientistas e estadistas. O fato é que a construção de referências adequadas para interpretar a realidade é essencial para uma melhor atuação e resolução do problema enfrentado. Por isso, entendo que o termo sindemia é o mais adequado para interpretar e  atuar no contexto da crise atual, visto que sua definição é mais ampla e corresponde de forma integral ao caso do coronavírus. Isso pelo fato de sindemia consistir em uma definição que leva em consideração não somente os fatores sanitários, mas também as questões sociais.

 

Além disso, transparece o fato de a COVID-19 agir no organismo em conjunto com outras doenças como diabetes, hipertensão, doenças respiratórias, etc, comprometendo ainda mais a vida dos pacientes e aumentando os riscos de morte. Nesse sentido, é preciso entender que os fatores sociais e ambientais conjuntamente promovem e intensificam os efeitos negativos da COVID-19. A situação do país é alarmante em vista das desigualdades sociais e econômicas, potencializada com a ausência de uma política pública federal de combate aos efeitos adversos decorrentes do coronavírus.

 

A falta de planejamento para a vacinação em massa e, antes disso, o inexistente plano de controle da infecção, acompanhado de ineficientes ações pontuais do Governo Federal, além da oposição do presidente da república às medidas dos Estados e municípios, levaram o país aos caos sanitário, social, político e econômico. As autoridades têm concentrado seus discur­sos na necessidade da vacinação como a única forma de resolução do problema. Todavia, é fundamental que medidas sejam tomadas imediatamente, considerando que há uma escassez de doses no mundo e o Brasil negligenciou sua posição na compra dos imunizantes.

 

Para que as pessoas fiquem em casa em segurança enquanto a sindemia não se dissipa, três iniciativas precisam ser tomadas urgentemente pelo Governo Federal com o Congresso Nacional e apoio do STF: 1) instauração da renda cidadã universal. Todo o brasileiro, toda brasileira, maior de idade tem direito ao benefício independentemente da classe social. Caso pessoas das classes mais abastadas usem o recurso público, devolvem no Imposto de Renda, evitando fraudes e o preconceito com pessoas desfavorecidas. 2) aprovação do Imposto de Renda progressivo. As classes populares devem ser isentadas, a classe média deve pagar menos e as classes ricas precisam pagar muito mais imposto do que pagam hoje em virtude de seus privilégios. 3) taxação das grandes fortunas. Taxar a riqueza das famílias milionárias que há séculos acumulam seus bens explorando o trabalho alheio.

 

Diante da crise humanitária, as aproximadamente 280 mil famílias milionárias presentes nesse país de mais de 200 milhões de habitantes precisam dedicar pelo menos uma pequena parte de suas fortunas para combater a mazelas causadas pela sindemia. É preciso coragem das instituições e lideranças preocupadas com a população mais precarizada do país. Além de denunciarem as práticas genocidas do atual presidente, é preciso exigir das estruturas de poder uma tomada de posição em defesa da vida. A economia só tem condições de voltar a crescer com o fim das mortes em massa.

 

 

Flávio Sofiati

Professor de Sociologia da Universidade Federal de Goiás

 

 

Previous post

Basta! José Dirceu

Next post

Jales Guedes assume presidência. Com Nilson Jaime e Eurico Barbosa

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *